ESPAÇO ABERTO
A realidade dos cursos inferiores
José Luciano Tavares da Silva
Foi-se o tempo em que diploma de curso superior era sinônimo de conhecimento, juntamente com os áureos tempos em que o ingresso como aluno de uma faculdade, não importa qual curso fosse, merecia comemoração. Atualmente as vagas em determinados cursos de instituições de ensino superior particulares são tantas que tem coordenador de curso catando aluno ''a laço''. Quantos alunos estão interessados em se matricular no curso ''X'' da instituição ''A''? Sessenta? Abrem-se 60 vagas. Cento e vinte? Abrem-se 120 vagas. Duzentos e quarenta? Abrem-se 240 vagas, duas turmas com 120 alunos e os professores que façam o milagre da multiplicação do conhecimento.
O sujeito faz o ensino fundamental e médio em seis meses, increve-se e pode considerar-se automaticamente aprovado no vestibular de ''araque'' que só é exigido mesmo por ainda ser obrigatório. Mesmo com a enorme carência de mão de obra especializada em alguns setores, que poderia ser muito bem servida por bons cursos técnicos em nível médio, no Brasil o que vale é ter curso superior, não importando todavia sua qualidade nem quais artifícios se lance mão para ter o sonhado diploma, mesmo que este valha tanto quanto uma nota de três reais.
Muitos cursos técnicos apresentam ainda a enorme vantagem de praticamente garantir no final uma colocação no mercado de trabalho, muito diferente do portador do curso superior que tem muitas vezes que praticamente se prostituir para poder ganhar uma chance de ter o mínimo de rendimento, tendo em vista a enorme oferta de enfermeiros, fisioterapeutas, professores de educação física, advogados e demais profissionais todos com péssima formação.
Sem querer ser elitista, simplesmente não consigo imaginar como um curso de Fisioterapia, Farmácia ou Enfermagem, por exemplo, os quais a meu ver necessitam de dedicação exclusiva - tendo em vista estarem diretamente ligados à saúde - serem ministrados exclusivamente no período noturno! O sujeito chega à faculdade após um dia estafante de trabalho e vai aprender a cuidar da saúde das pessoas! Que qualidade pode-se esperar deste profissional? Não quero dizer com isto que todos que se formam em cursos de período integral serão excelentes profissionais, longe disso! Mas a chance de sê-lo é consideravelmente maior.
Contudo, não se iluda quem está achando que a culpa desta triste realidade no ensino superior (melhor chamar de ''inferior'') deve-se única e exclusivamente ao negócio extremamente lucrativo no qual este se transformou. Em muitas instituições públicas ou particulares com um nome a zelar, observa-se às vezes a situação oposta: excelentes alunos com enorme potencial são frustrados em suas expectativas. O problema agora é que o conhecimento do professor às vezes é de fazer chorar de raiva. Outras vezes se tem algo a oferecer em termos de conhecimento e julga-se muito importante para passá-lo a ''reles mortais'', não tendo o trabalho de sequer ler a matéria antes de encarar a turma.
Resultado: o professor não dá uma aula sequer, a matéria é toda dividida em tópicos, os alunos são divididos em grupos, cada qual responsável por um tópico e até o final do ano os famosos ''seminários'' para enchimento de linguiça e engabelação tomarão o lugar das tão sonhadas aulas que os bons alunos sedentos por conhecimento esperariam ter. O professor permanece no fundo da sala contando carneirinhos.
Já me contaram situações em que o professor estava tão interessado na apresentação do aluno que este leu uma história em quadrinhos no lugar da matéria durante o seminário e o ''nobre colega'' nem percebeu. É de matar de vergonha! Assim, sugiro aos incautos que antes de aventurarem-se durante quatro a cinco anos num curso superior de qualidade duvidosa, matriculem-se num curso técnico de boa qualidade. Tenho certeza que não perderá absolutamente nada, muito pelo contrário, no futuro só terá a ganhar.
JOSÉ LUCIANO TAVARES DA SILVA é professor de Fisiologia Humana na Universidade Estadual de Londrina
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