ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de abril de 2009
Walter Barbosa Bittar 
É inegável o apelo que a palavra inicial deste breve texto provoca em todos nós e obriga a reflexão: existe violência sem causa? E, em caso de resposta negativa: o que causa a violência é estranho a minha conduta como ser humano?
A experiência sensível nos faz acreditar que a violência resta focada no aumento desenfreado da criminalidade e da brutalidade que tomou de assalto (literalmente) a vida em sociedade. Mais: o senso comum acredita que a violência tem galgado os níveis atuais em nossa sociedade, ante ao descaso das autoridades constituídas e a fragilidade da legislação brasileira.
Noutra vertente, todos somos tomados por uma sensação de que a qualquer momento, na esquina mais próxima, no trabalho ou dentro de nossa casa algo de muito grave, cedo ou tarde, terminará nos atingindo: um assalto, um estupro, um tiro, uma facada, uma agressão inesperada... Essa estranha sensação domina nosso imaginário todos os dias e resulta, inapelavelmente, na sensação de frustração e ódio para com as estruturas de poder que, aparentemente, nada fazem para reverter esta situação.
É preciso compreender que muito pior do que a violência física a que estamos sujeitos é a violência moral que adentra em nossos lares, especialmente pela televisão e que, com a nossa cumplicidade, acende o estopim das condutas que, cedo ou tarde, desencadearão a tão temida violência física, ou seja, o desencadeador da violência é a nossa conduta (ação ou omissão!). A inoperância das autoridades públicas ante a violência não é a causa principal desta, mas apenas uma das consequências das inconsequentes atitudes individuais.
Sim, quando, passivamente, assistimos a onda vergonhosa de pornografia e futilidade que, com honrosas exceções, preenchem a grade diária da imensa maioria dos programas televisivos (os pais que permitem que seus filhos vejam televisão sem supervisão possuem enorme parcela de culpa), com nudez abundante, propagação de relativismo moral (se todos fazem por que não eu?), difusão da filosofia hedonista (busca do prazer material), estamos compactuando com a violência sexual e moral imposta aos nossos jovens, e que estão exterminando o senso de decência, pois o caminho tomado por uma parte significativa da juventude (ressalvadas as exceções), é avesso aos valores reais.
Quando apoiamos políticos corruptos (de uma forma ou de outra) e que atendem aos interesses pessoais e de determinados grupos, estamos negligenciando com a possibilidade de criar uma política séria de segurança pública e colheremos, inapelavelmente, nossa própria agressão pessoal um dia ou outro. Quando nos calamos diante de tantos descalabros que ocorrem na sociedade, também acrescentamos nossa participação no crescimento e fomento da violência, triunfo da mesquinharia que parece ter tomado conta dos que preferem o silêncio, ante aos enormes avanços da hipocrisia nos últimos anos.
Não surpreende o número crescente de crianças violentadas, eis que a onda de sensualidade e imoralidade já tomou conta de inúmeros lares do País; não mais espanta que os criminosos sejam cada vez mais agressivos, pois são vítimas diárias (como nós) desta violência institucionalizada, e os verdadeiros valores estão perdidos; não admira que as pessoas cada vez mais estejam desoladas e que busquem o verdadeiro culpado por esse fenômeno (a violência) aterrador que nos perturba diuturnamente nas autoridades, esquecendo que estas - em uma democracia - são escolhidas pelo povo.
Infelizmente, os verdadeiros culpados são aqueles que apoiam ou votam por interesse ou desconhecimento em políticos corruptos, aqueles que dão audiência aos programas televisivos indecentes que são a maior parte da grade de programação, aqueles que se calam quando os valores morais são agredidos, aqueles que pensam que a culpa pela violência está, somente, naqueles que governam, esquecendo-se que é a atitude pessoal de cada cidadão o único meio eficaz de enfrentar a odiada violência.
WALTER BARBOSA BITTAR é advogado e professor de Direito Penal da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, campus Londrina


