ESPAÇO ABERTO
Benditas sejam nossas fraquezas
Dom Orlando Brandes
Benditas as fraquezas, sem as quais seríamos orgulhosos, prepotentes, presunçosos e sem compaixão. Aceitar a fraqueza é o caminho da sabedoria. Paulo apóstolo ensina que quando somos fracos a graça de Deus é forte em nós. Nossas fraquezas nos jogam nos braços de Deus e aos pés dos irmãos. Descobrimos o amor misericordioso do Pai e a compaixão pelos irmãos.
As fraquezas são chances de crescimento. O sofrimento leva ao amadurecimento. A cruz tem luz. As fraquezas abrem as portas do autoconhecimento e do reconhecimento de Deus que nos ama como somos. Deus escolhe fracos para confundir os fortes. Nosso limo original, nosso barro adâmico carrega os mistérios mais altos da fé. Vasos de argila, somos visibilidade de Deus. As fraquezas são santuários onde encontramos Deus. São bênçãos que nos tornam compreensivos, compassivos e solidários. ''Quanto mais descubro minha fraqueza, mais descubro tua grandeza Senhor'' (Tereza de Calcutá).
A estéril se torna mãe de muitos filhos; os que estão no fundo do poço, encontram a fonte; os que habitam nos lixeiros são tirados de lá e sentam-se entre os nobres; os que caem experimentam o beijo e o abraço do Pai que faz festa com a volta do que estava perdido. As fraquezas são bênçãos.
A vida ensina o poder da fraqueza. Uma pedrinha no sapato pode nos levar ao cemitério; com um caco de telha podemos fazer múltiplas boas obras; as flores mais belas estão enraizadas no esterco; há flores que nascem só na lama, outras só nas rochas; uma pessoa portadora de deficiência nos pés nos revela que devemos deixar de querer sempre sapatos novos. Do lixo vem o luxo. As lágrimas lavam o coração e dão brilho aos olhos.
As fraquezas são escolas de humanismo. Uma doença ensina-nos a mudar hábitos errados, uma queda no chão rompe nossas máscaras e aparências, um defeito físico, psicológico, espiritual é motivo de esperanças e vitórias; a morte coloca limites ao desejo de onipotência. O deserto é fértil. A ferida é motivo de luta, esperança, pesquisa e descobertas. O pecado é uma feliz culpa que faz descobrir tão grande Salvador. Os erros ensinam e amadurecem. As tribulações trazem grandes consolações.
Entre os escolhidos de Deus, escreve Paulo apóstolo, não há muitos nobres, nem muitos ricos, nem muitos sábios. Os que não são confundem os que são. O menino Davi vence o gigante Golias. Foi a doméstica do general Naamã, que o aconselhou ir até ao profeta Eliseu para ser curado da lepra e assim aconteceu. A prostituta Raab salvou os enviados a averiguar a terra e conhecer os inimigos. Jesus ensina o poder do pequeno grão de mostarda e da colher de fermento. O que quer ser o maior, seja o menor. Chamou um menino para acalmar a briga pelo poder entre os apóstolos. Quantas vezes os oprimidos salvaram seus opressores, os doentes ensinaram aos médicos, as vítimas converteram seus algozes, os pequenos foram e são arrimo dos grandes, os fiéis santificaram os sacerdotes. As fraquezas são bênçãos e os fracos são fortes.
Jesus evangeliza pela ''via da fraqueza'' e mostra que o servo, o menor e o último estão no coração do evangelho, e que o Pai se revela aos pequeninos. Os santos são grandes mestres forjados na experiência da fraqueza. Jesus mesmo esvaziou-se de sua glória e na fragilidade do menino de Belém e do executado na cruz, comprovou a bênção da fraqueza. Como é humilde, pobre e frágil Jesus no pão eucaristizado. Aquela pequena e frágil hóstia é o Senhor Ressuscitado Vivo.
As bem-aventuranças são a exaltação e glorificação dos fracos: os pobres, os mansos, os aflitos, os misericordiosos, os pacíficos, os perseguidos. Deles é o reino da felicidade e liberdade. Até as frágeis aves do céu revelam que a Providência Divina delas cuida e nunca as esquece. Fracas também são as pessoas que creem, tocam e se prostram diante de Jesus: cegos, paralíticos, leprosos, endemoniados, prostitutas e pecadores são os que mais experimentam o poder da graça e da fé em suas fraquezas.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
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