ESPAÇO ABERTO
A escola vai além do conteúdo
Neide Spanguemberg Mello
Vincular o analfabetismo funcional com o papel da escola é desconhecer os meandros de uma sala de aula. O conteúdo é a base para a prática educacional, no entanto, não significa o único foco na relação ensino-aprendizagem. Até porque nem mesmo é possível. A dinâmica funcional do professor exige dele avançar muito além dos conteúdos programáticos zelando pela compreensão mais ampla do aluno.
O conteúdo programático é focado no principal objetivo: o ensino-aprendizagem. Ele norteia a seleção dos conhecimentos mais significativos de cada disciplina. Hoje a escola desenvolve o seu trabalho pedagógico com embasamento nos conteúdos estruturantes que são de dimensões econômicas, políticas, culturais e socioambientais. Estes conteúdos deverão fundamentar a abordagem dos conteúdos básicos de cada disciplina.
Atualmente o ensino-aprendizagem vem de encontro ao cotidiano do aluno. Isso propicia perspectivas de inserção do aluno no mundo contemporâneo. Ao se trabalhar com o eixo focado na formação do cidadão, a escola prepara o educando para o mercado de trabalho, fomenta a criatividade e o modo crítico de analisar fatos, perfazendo uma nova leitura do mundo.
Nesse contexto, a disponibilidade de cursos de formação continuada aos docentes ajuda aperfeiçoar o seu cabedal de conhecimento bem como sua didática. A instrumentalização das escolas contribui para os arranjos metodológicos e práticos: hoje se trabalha com multimídias, o Estado oferece sala de recursos para o aluno dislexo com distúrbio de aprendizagem e há profissionais de educação de alta capacidade no acompanhamento na progressão do aluno.
Graças ao empenho em ter conteúdos programáticos flexíveis, a escola ainda se preocupa com questões como a violência, a família ausente, as drogas e as salas numerosas que competem a outras esferas de poder. Se cada poder constituído resolver seus problemas inerentes, a escola poderia cumprir a sua função completa no desenvolvimento cognitivo e intelectual dos seus educandos.
NEIDE SPANGUEMBERG MELLO é professora de Geografia, pós-graduada em Meio Ambiente e Organização do Espaço em Rolândia
Sobre os doentes extremos
Walmor Macarini
Códigos devem ser revistos, e não fica fora o que trata do comportamento dos médicos. Porém, mais que ético, o código da medicina deveria avançar um pouco além do conhecido e do meramente físico, agora que se estuda mudá-lo. A revisão não está tratando apenas da questão dos doentes ditos terminais mas me atenho a isto porque a posição da maioria dos médicos é que, conforme a situação, a morte não seja impedida.
Tudo certo enquanto a medicina (ainda) se atém puramente à fisicalidade, porque é do corpo que ela trata. Mas já há uma pequena - mas crescente - comunidade de médicos que têm buscado entendimentos além dos ensinados nos bancos acadêmicos e comportam-se com mais cautela diante da eutanásia ou são declaradamente contra. Negligências e erros médicos acontecem, como em todas as profissões, e também não se pode a priori julgar que se um doente morreu foi por imperícia médica.
Tudo isto se compreende, menos que favoreça a morte sob o argumento de que se trata de paciente que considera sem cura. A boa intenção é impedir que sofra, mas há razões transcendentes que não são levadas em conta. Primeiro, a ciência médica ainda não deu sua última palavra sobre a impossibilidade de alguém ser curado e onde está, com precisão, o limite entre a vida e a morte. A maior parte dos médicos também não acredita que doenças têm origem extracorpórea, mesmo que ocorram por um ferimento ou pela ação de um vírus. Ocorre que a intromissão desses agentes também não se dá por acaso. Eles são os instrumentos.
Se um paciente tido como terminal está consciente em seu espírito, pode num lampejo despertar o invólucro carnal e possibilitar-lhe dizer algo que eventualmente queira dizer, ou fazer um gesto, um toque de mão a alguém que deseje perdoar, ou um escrito, uma revelação. Se há vida pulsante há esperança. Ninguém conhece o processo que cada qual deseja passar pela vida, estabelecido antes de aqui aportar. Buscar a cura e a atenuação do sofrimento sim, mas nunca o extermínio. A medicina convencional não crê em muitas coisas do extrafísico, mas deveria começar a investigar a respeito.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA
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