ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de março de 2009
Agnaldo Kupper 
O mundo do trabalho capitalista espera conhecimento técnico, polivalência, atualização, comunicação, capacidade de trabalho em equipe, mobilidade, previsão de cenários, transferência de conhecimentos, promoção de mudanças, criações, criticidade, iniciativa, ética, solidariedade, responsabilidade, e justiça. Muita coisa, não é mesmo? Este mesmo mundo do trabalho não espera um ser tecnocrata, mas humanista e múltiplo.
As discussões dos teóricos da educação acabam sendo remetidas às conclusões de sempre: o aluno deve ser o agente do saber; a interdisciplinaridade é fundamental; o desenvolvimento das habilidades, competências, inteligências, atitudes e valores são indispensáveis, com o professor devendo ser um especialista no processo de aprendizagem. Pura ilusão de quem teoriza como espectador. E teorizar não levando em consideração a estrutura educacional brasileira é utópico.
Com tanta teoria, professores e coordenações escolares não só ficam perdidos, como passam a se ver incompetentes. A forma como a educação é hoje discutida e avaliada em sua aplicação, arrisco-me a dizer que em várias instituições de ensino particular há mera troca de valores monetários: os pais querem acreditar no que compram e estas escolas querem fazer acreditar o que vendem. Os pais ou responsáveis sabem que a educação é a única oportunidade de ascensão social que não leva em consideração o status familiar adquirido.
Assim, vivemos em um mundo educacional no qual prevalecem as mentiras na maioria das instituições que se propõem a fazer, gerar ou ''dar'' educação, sejam públicas ou privadas. Nas particulares, em geral, vende-se esperança.
A escola sabe que precisa adaptar-se à sociedade da informação. O simples acúmulo de conhecimentos não é garantia de sucesso profissional. Daí, o dilema: a escola deve educar para o mercado ou para a vida? Eis a dúvida maior neste início de século XXI. Na dúvida, a escola perde-se em propósitos.
Preocupado com o papel das instituições escolares, o governo Fernando Henrique (1994-2002) editou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1996. Por meio dela conferiu-se maior autonomia às escolas, desejando vê-las vinculadas ao mundo da prática social e do trabalho. Pela LDB, os conteúdos apresentam três alicerces: competências, habilidades e atitudes. Disso resulta: é competente quem sabe aprender; é hábil quem sabe fazer; possui atitude quem sabe conviver, trazendo-nos como principal paradigma a troca de experiências calcada em relações horizontais professor-aluno. Espera-se, assim, mais do professor. Aí está o problema: é necessário reciclar esta figura que se tornou principal. No caso do Brasil, com uma estrutura pública falha, dá-se cobertura a esta peça essencial? Difícil é fazer uma previsão otimista perante a estrutura vigente, quando o futuro da educação passa, obrigatoriamente, pelo docente.
No mundo contemporâneo não cabe mais a escola tradicional, na qual os professores ensinam com base em um programa preestabelecido, normalmente pensado por pessoas há muito fora das salas de aula. Não cabe mais o ensino fragmentado e fragmentador. O conteúdo, o método e a gestão escolar precisam se aperfeiçoados evolutivamente para que tenhamos perspectivas na educação e saiamos do faz de conta. Uma nova visão de ser humano deve ser repassada ao aluno, caso contrário ele a obterá fora dos bancos escolares (como, acredito, já o faz).
Foi-se o tempo da escola pública reconhecida. Foi-se o tempo em que a escola particular era muito ruim. A pública perdeu-se no tempo; a particular ganhou o seu espaço. Mas a escola pública pode ser recuperada - assim como seu professor -, pois possui características para tal: é popular, é aberta e não sofre tanta interferência do desejo dos pais, dos valores monetários e é mais acessível a inovações. A infância e a adolescência são mais intensas nas camadas sociais menos privilegiadas. Nas escolas particulares, crianças são transformadas em alunos; nos estabelecimentos públicos de ensino podem transformar-se em pessoas.
Ao contrário do dito corriqueiro, educação neste país sempre foi prioridade para manter o elitismo que obstrui a ascensão de clareza à maioria da população.
AGNALDO KUPPER é professor de Sociologia e História em Londrina


