ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de março de 2009
Mary Neide Damico Figueiró 
A educação sexual é um
dos mais promissores
caminhos para enfrentarmos
a violência, o abuso
sexual, o bulling, a
homofobia, a fragilidade
nos relacionamentos
afetivo-sexuais entre
pares e a discriminação
Faço um convite aos educadores, aos profissionais das escolas municipais, estaduais e particulares: vamos incluir a educação sexual na formação de nossas crianças, adolescentes e jovens. Consiste em criar momentos de reflexão sobre a sexualidade, com dinâmicas de grupo, debates e aquisição de conhecimentos científicos.
Mas o que devemos entender por educação sexual? Não se trata apenas do ensino da Biologia e da Fisiologia da sexualidade. A educação sexual envolve, sobretudo, a formação em valores com vista à autonomia moral e intelectual dos educandos. Quando trabalhamos o tema da sexualidade, trabalhamos o relacionamento humano e, com ele, os sentimentos, o afeto, o diálogo e o respeito por si e pelo outro. A educação sexual é um dos mais promissores caminhos para enfrentarmos problemas que afetam a todos: a violência, o abuso sexual, o bulling, a homofobia, a fragilidade nos relacionamentos afetivo-sexuais entre pares e a discriminação por todo tipo de diversidade, seja ela racial, religiosa, sexual, etc.
Contudo, a proposta não é simples e traz consigo alguns desafios. O maior deles é a formação do educador para o ensino da sexualidade. Eles estão prontos? Geralmente, a maioria não está e apresenta receio e dúvidas quanto à forma de se trabalhar o tema, o que é natural e compreensivo, uma vez que as universidades têm sido omissas neste aspecto ao formar professores das várias áreas. É bom que cada escola empenhe-se em criar condições para que seus profissionais tenham acesso a este aprendizado. Uma alternativa válida é a realização de grupos de estudo com a participação de profissionais especializados no tema para assessorar os professores. Estudar sobre sexualidade, certamente, os conduz a um crescimento profissional e pessoal.
Precisamos recuperar o tempo perdido, pois nossas escolas estão muito aquém nesse tipo de trabalho. A primeira tentativa de inserir a educação sexual no currículo escolar data de 1930, no Colégio Batista do Rio de Janeiro. O maior número de experiências de implantação desses programas em escolas brasileiras deu-se na década de 60, porém, o período de repressão militar desacelerou-as. Vários acontecimentos repressores deixaram grandes cicatrizes, cujos efeitos parecem perdurar até os dias de hoje. Na década de 80 e 90, algumas escolas, especialmente nos grandes centros, começaram a introduzir ou reintroduzir o tema. Contudo, estamos distantes de um panorama promissor.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) elaborados pelo MEC, em 1996, propõem que o tema seja ensinado como ''tema transversal''. É uma proposta interessante, pois convida a todos os professores, independente da disciplina que lecionam, a envolverem-se com a temática, tanto de forma intencional e planejada, quanto de maneira informal, ou seja, aproveitando pequenas situações que acontecem no dia a dia da escola ou aproveitando perguntas feitas pelos alunos para ensinar a partir daí. Os PCN são, sem dúvida, um grande ''divisor de águas'' quando se trata do ensino da sexualidade, também porque dão o apoio legal aos educadores, embora, no Paraná, as Diretrizes Curriculares de 2008 não coadunem com os mesmos moldes dos PCN.
Várias pesquisas e experiências em escolas públicas, inclusive de Londrina, têm comprovado que os professores que decidem trabalhar o tema conquistam a amizade e a confiança dos alunos. Estes, por sua vez, tornam-se mais integrados entre si, mais motivados para o estudo, e acabam por aumentar seu rendimento escolar e seu gosto pela escola. Onde isto tudo pode levar não é preciso dizer.
Tendo em vista que cabe às universidades o papel de contribuir com a formação continuada dos educadores, a UEL, por meio do departamento de Psicologia Social e Institucional, vem desenvolvendo Grupos de Estudos sobre Educação Sexual (GEES), que este ano entra em sua décima primeira edição. Aos que aceitarem o convite, fica depositada a esperança numa educação mais humanizadora e na realização pessoal e profissional pela ação de educar.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, doutora em Educação e professora do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina


