ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de março de 2009
José Rafael Solano Durán 
Entre os dogmas
científicos e
religiosos sempre
haverá um princípio
maior: o valor e a
dignidade da pessoa
humana. Esta não pode
ser reduzida a um
simples instrumento
Os acontecimentos de Recife - a violência contra a menina de 9 anos, a gravidez da mesma, o aborto praticado e também a excomunhão - suscitaram grande perplexidade, inquietação e mordazes manifestações de incompreensão nos meios jornalísticos e populares. Os fatos são gravíssimos e despertaram forte emotividade. A isso se acrescentou a exacerbação midiática que em muito contribuiu para que tamanha complexidade fosse abordada sem a suficiente reflexão bioética que o caso requeria.
Por que se propalaram tanto as palavras do arcebispo de Olinda e Recife sobre a excomunhão, como se fossem elas a grande tragédia? Por que o silêncio sobre os fatos que precederam a transferência da criança de um hospital para outro, no qual foi realizado o aborto? Por que os profissionais da saúde que o realizaram receberam tanta projeção? Quem pensou nos dois pequenos seres já em estágio bem desenvolvido de gestação? Acaso não tinham algum direito? E agora que tudo passou e que a tragédia não é mais novidade, não se tem mais nada a dizer?
Situações semelhantes são quase cotidianas, mas uma ou outra, por sua singularidade, vem à ribalta. Ao final, parece que nos dizem pouco, tão habituados que estamos com a violência. Sofremos de dificuldades de aprendizagem. Quem não se deixa ensinar, facilmente adquire pendores a tiranizar. Quem não parte de valores absolutos será presa dos modismos de circunstância.
Em meio a tantas verdades em conflito, de onde partir? A Bioética personalista propõe uma séria reflexão sobre o tema da vida e da dignidade da pessoa humana como valores absolutos. Num contexto como aquele, a Bioética teria lançado muitas luzes que favoreceriam a análise multidisciplinar do quadro.
Facilmente a Igreja Católica é acusada de fundamentalista, conservadora ou retrógrada. Porém, é desconhecida por muitos a proposta da Bioética personalista, assumida pela Igreja. Embora quase nunca lembrado, o fundamentalismo científico tornou-se o ponto de partida para aceitar concessões que relativizam o caráter absoluto da vida humana. Já desde os tempos de Aristóteles afirmava-se que quem unilateraliza mascara o todo.
No momento em que a criança foi submetida ao aborto induzido, ainda não se tratava de um quadro de risco. E neste campo a Medicina já foi vitoriosa em realidades de semelhante delicadeza. No caso de Recife não houve reflexão; houve pressa. Prevaleceu o fácil consenso, que não é norma de moralidade e sim de conveniência.
Entre os dogmas científicos e religiosos sempre haverá um princípio maior, o valor e a dignidade da pessoa humana. Esta não pode ser reduzida a um simples instrumento. Grupos abortistas aproveitaram-se do drama para apresentarem como caminho lógico aquilo que precisava de uma reflexão ética mais respeitosa com a vida humana. Quiseram que se afigurasse verdade aquilo que foi uma resposta violenta a uma violência anterior.
Depois de tudo o que aconteceu a criança será esquecida, alguns serão vistos como heróis e outros como vilões. Nunca como hoje a vida humana e sua dignidade precisaram tanto de profetas. Vale recordar a sentença presente no livro do profeta Ezequiel: Quer te ouçam, quer não te ouçam, saibam que houve um Profeta entre eles (Ez 2,5).
JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é doutor em Teologia Moral e Bioética, professor da PUC-PR e sacerdote da Arquidiocese de Londrina


