ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de março de 2009
José Mario Angeli 
A origem da crise
está na falta de limites
do mercado financeiro,
na desregulamentação e
na falta de limites às
possibilidades de ganho
a partir da especulação
Surpreendentemente vimos os liberais defenderem a interferência do Estado na economia contrário ao seu discurso clássico: o mercado como único regulador da economia. Teriam eles revisto sua teoria? A palavra capitalismo até pouco tempo não era pronunciada no discurso dominante. A desigualdade, a pobreza e a exclusão eram resultado da ação humana agravada inclusive em tempo de crise. Seus representantes agora moralizam e naturalizam a crise atribuindo aos ''maus banqueiros'' e aos ''maus investidores''. Minimizam o fracasso histórico do capitalismo e tentam difundir certo ceticismo com relação à crise.
Em tese o capitalismo é marcado por crises econômicas, intrínsecas à sua forma produtiva, caracterizada pela relação capital e trabalho. A relação entre o investimento em capital constante (prédios, máquinas e tecnologia) e a desproporção em capital variável (o trabalho vivo) conduz a uma queda da taxa de lucro. Isto não significa que o capitalista não tem mais o trabalho como gerador de valor e mais-valia, até porque a sua recuperação passa pela expropriação do trabalho: o resto é pura ideologia.
Confrontado com essa fatalidade, o capitalista investe seus lucros noutro setor econômico que possibilita mais rentabilidade, por exemplo, no setor financeiro, como as bolsas de valores e bancos imobiliários. A questão é que ''dinheiro não gera dinheiro'' e, para que ele possa valorizar seu lucro, é necessário investir na produção de forma que seja possível apropriar-se do excedente gerado pelo trabalho. A consequência sobre o capital produtivo é perceptível. Então, para suportar a carga de juros e satisfazer as exigências dos acionistas, as indústrias se veem obrigadas a aumentarem a mais-valia explorando maiores jornadas de trabalho e menores salários. Isto aumenta a superprodução. Em resumo, menos salários e desempregos significam menos consumo e desestímulo da economia gerando as crises cíclicas.
A origem da crise não está nos custos da produção, mas na falta de limites do mercado financeiro, na desregulamentação e na falta de limites às possibilidades de ganho a partir da especulação. De modo que, os sindicatos e as centrais do campo do trabalho deverão enfrentar a política econômica dos governos de socorro às empresas com o dinheiro público e lutar apela regulamentação do mercado financeiro. Sindicato de trabalhador é para defender o salário, lutar pelo emprego e assegurar os direitos sociais dos trabalhadores. Ele não tem a obrigação de ajudar o sistema a sair da crise. O que os liberais querem em nome da crise é a redução do custo do trabalho e alocação de recursos do Estado no mercado, o que revela um total descompromisso com o trabalho, com as políticas públicas e com a própria nação.
O Estado é chamado para atenuar a crise e depois os liberais querem que o mercado se encarregue da regulação. Ajudar o capitalismo a sair da crise na perspectiva liberal significa fortalecer a ideia de mercado, instrumento de concentração de poder. O que parece um contrassenso, pois o Estado se endivida para ajudar os responsáveis pela crise.
O desafio dos sindicatos é o de recuperar o seu poder de luta contra o modelo econômico. A fragilidade e o fracasso dos sindicatos são resultado das transformações que ocorreram no interior da economia, via taxação da mais-valia absoluta e relativa, arrocho salarial, desemprego e repressão às greves. Tudo isto não está descartável, mas corre-se o risco de uma corrida inflacionária na busca pela recuperação da taxa de lucro das empresas. Não é pouco o que os sindicatos têm pela frente. A recolocação dessas bandeiras poderá recompor a unidade sindical, pois o liberalismo dá sinal de fracasso e os liberais assinalam para isto, entretanto, ele não está superado. Os liberais se apresentam derrotados, momentaneamente, e ao negarem ''a mão invisível do mercado'', afirmando ação emergencial do Estado, revelam o fracasso da sua teoria. ''E o galo cantou.''
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina


