ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de março de 2009
Patrícia Grassano Pedalino 
Visitar os bairros de
vulnerabilidade nos mostra
que vivemos em um oásis.
O que se verifica é a
ausência de limpeza pública,
entulho em todas as encostas,
bares que são ponto de
consumo e tráfico de drogas
- grande chamariz de
crianças e adolescentes
Dias atrás acompanhamos repetidas vezes comentários acerca do vandalismo na Praça Rocha Pombo, principalmente quanto ao espelho d'água que passou a contar com frequentadores assíduos (vândalos). Por coincidência, estava atravessando a avenida Higienópolis quando vi três meninas de 11 e 12 anos. Decidi conversar com elas. Eram moradoras de um bairro de grande vulnerabilidade em Londrina. Duas delas ''dependentes de chupetas'', que estavam penduradas como um colar em seus pescoços. Crianças: com corpo, roupa e maquiagem de adultas.
Apesar da aparência adulta, era possível vislumbrar em poucos segundos de conversa que se tratavam de crianças de tenra idade, desamparadas e ávidas por um sonho. Depois de conversarmos um tempo, se despediram dizendo: ''Tchau tia, está muito calor aqui, vamos nadar''. Quis saber aonde iriam: ''Na piscina da praça!''. Perguntei que praça seria, apenas para me certificar de que não estava enganada. Então, com certa vergonha informei que aquela não era uma piscina. A vergonha que senti era uma mistura de responsabilidade com a situação, incapacidade, impossibilidade e tristeza.
Elas perguntaram: ''O que é então?''. Respondi: ''Um espelho d'agua e serve para enfeitar a praça''. Na verdade, adoro praças, mas dentro daquele contexto, ter um espelho d'água numa praça quando moramos numa cidade na qual o verão é intenso, que não conta com piscinas públicas, que o Lago Igapó fica lotado de pessoas querendo se refrescar, mesmo sendo local impróprio para banho, me pareceu surreal.
Pensando sobre aquele inusitado encontro e conversa, me lembrei de termos discutido segurança pública no Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente. Estamos em um momento em que o Brasil inteiro se prepara para debater a segurança pública e eu pergunto se segurança é caso de polícia? Ter uma vida digna, com mínimas condições e decência, faz diferença? Morar em um bairro que tenha uma praça, um banquinho para sentar, algumas árvores, uma piscina pública, ginásio esportivo aberto à comunidade, locais de lazer, talvez desejando muito, umas mesas de pingue-pongue de concreto, mesinhas de xadrez. Nem se fale então das questões básicas: escola de qualidade, professores capacitados, preocupados com a vida de cada uma das crianças que ensinam.
A violência urbana é ainda pequena se pensarmos que em nossa cidade os leitores deste Jornal representam pequena parte da população, que a grande parte dos cidadãos segue ao largo da sociedade. Visitar os bairros de vulnerabilidade nos finais de semana, nos mostra que vivemos em um oásis. Nestes bairros o que se verifica é a ausência de limpeza pública, entulho em todas encostas, residências abarrotadas de lixo ''reciclável'' fonte de renda dos moradores, bares que são ponto de consumo e tráfico de drogas - grande chamariz de crianças e adolescentes semianalfabetos que têm nesta ''profissão'' a oportunidade de ''emprego'', já que são desprovidos de qualquer qualificação.
A segurança que eu e você queremos não está longe, nem está nas mãos da polícia. Está ao alcance das nossas mãos, conforme preceitua o artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente: ''É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária''.
A sociedade pode e deve fazer a diferença.
PATRÍCIA GRASSANO PEDALINO é advogada, diretora voluntária da Associação Mãos Estendidas e conselheira municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Londrina


