ESPAÇO ABERTO
A misericórdia coloca
um limite à iniquidade
e à crueldade. Não
podemos nos acomodar
nos braços da mediocridade,
nem na lei do mais forte.
Precisamos cultivar aquela
indomável confiança na
capacidade de reabilitação
pessoal e social
A Campanha da Fraternidade de 2009 reflete o tema: Segurança Pública, com o lema ''a paz é fruto da justiça'' (Is 32,17). Nosso século está sendo chamado de ''século do medo''. A insegurança tomou conta até de condomínios fechados e bancos monitorados pelos mais modernos equipamentos. Cada cidadão é tido por uma ameaça, um perigo, um suspeito. Vizinho, quanto mais longe parece melhor. A vida humana virou objeto descartável. Estamos numa crise profunda de falta confiança e sem ela é impossível viver e conviver. Sentimo-nos frágeis e inadequados para ajudar tantas vítimas da violência. O povo procura estar armado até aos dentes. Somos comandados pelo crime organizado e nos tornamos reféns de cercas elétricas, cães ferozes, câmaras de segurança.
Além da dor física, psicológica e moral, e dos sentimentos de inutilidade, uma sensação de vazio toma conta da nossa existência. Sentimentos de ódio, vingança, retaliação, crueldade nos levam a tomar atitudes de destrutividade. Vem o desejo da legalização da pena de morte, da punição carcerária e da tortura, na lógica do olho por olho.
Esta realidade assim infra-humana leva muitos casais a não querer filhos por medo do sofrimento. Outra parte da sociedade sofre de diversos tipos de síndromes psicológicas e cai na depressão. Outros, buscam amparo na primeira religião ou igreja que encontram na esquina. Magia, superstição, religiosidade, drogas, alcoolismo e divertimentos servem de sedativos para muitas pessoas.
Surge então a ''indústria do medo'' com vendas e ofertas de todo tipo de segurança física, psicológica e social. Proliferam as mais desconcertantes religiosidades. Os centros de psiquiatria, de recuperação do sono, o ecoturismo, o sossego dos spas são parte desta sedenta busca de segurança. Por fim há os que procuram se proteger num ''excesso de segurança'' também prejudicial. Estas são algumas das razões para a Campanha da Fraternidade sobre Segurança Pública.
Podemos perceber que esta Campanha não vai só gritar por mais soldados e guardas nas ruas, mais vai tocar numa ferida incurável, ou seja, as causas da insegurança e da violência. Por outro lado, apresenta propostas bem concretas para uma ''cultura da paz''.
O texto base (nº127-129) refere-se à violência que sofrem também os policiais e nos convida a bem discernir o mau do bom policial. Os bons policiais sofrem a dor da sociedade e são vitimas da ação de bandidos e de colegas. Morrem com brio e lealdade no cumprimento do dever. Eles precisam do apoio da população, dos cuidados psicológicos, da ajuda religiosa. As doenças próprias desta profissão, a baixa remuneração, deixam policiais na insegurança e muitos desistem do trabalho.
O salmista reza: ''Vós Senhor, sois minha segurança''. Deus é amparo, rochedo, abrigo, segurança. A fé é sem duvida um grande escudo. As Escrituras Sagradas nos alertam a ''não ter medo''. Não podemos perder a esperança. Temos também o socorro da Providência Divina e guarda dos anjos de Deus. Todavia, ''a paz é obra da justiça'' (Is 32,17). A segurança se constrói com justiça, ética, direitos humanos e principalmente com o mandamento do amor.
Esta Campanha nos interpela a uma mudança de mentalidade, de consciência e de coração, de critérios, valores, atitudes que nos levam à fraternidade. Podemos viver como irmãos, vencer o império do mal com a onipotência do amor. A misericórdia coloca um limite à iniquidade e à crueldade. Não podemos nos acomodar nos braços da mediocridade, nem na lei do mais forte. Precisamos cultivar aquela indomável confiança na capacidade de reabilitação pessoal e social, sabendo que a pessoa humana não deixa de ser grande, mesmo quando erra. Vamos construir catedrais no deserto pois o amor de Deus pode renovar todas as coisas. Lancemos fora a espada, abracemos a força do direito e do amor. Assim a segurança habitará em nossos corações e em nossos campos e cidades.
DOM ORLANDO BRANDES é Arcebispo de Londrina





