Devemos nos colocar
desafios, projetos de
grande porte, de grande
alcance, para formar
as inteligências que
permitirão o desenvolvimento,
a qualidade deste
desenvolvimento e a nossa
capacidade competitiva



O LHC (Grande Colisor de Hádrons) - a maior máquina do mundo - entrou em operação, na fronteira entre a França e a Suíça, no dia 17 de setembro de 2008. No novo acelerador de partículas, prótons viajarão por um túnel circular com 27 quilômetros de circunferência, 8,6 km de diâmetro, a cerca de 100 metros de profundidade. Os prótons atingirão 99,999999% da velocidade da luz e a colisão de dois feixes em sentido contrário se dará com energias que permitirão aos físicos descobrirem, entre vários grandes mistérios da natureza, o mistério da massa - associada à existência ou não do bóson de Higgs. As energias envolvidas serão de tal ordem que há previsões, inclusive, da aparição de miniburacos negros.
O custo de tal construção é de quase uma dezena de bilhões de dólares. Mas a pergunta que se faz é: o que isto tem a ver com as pessoas comuns? O que é que há para além da Física? Por que tantos recursos despendidos em uma grande máquina para estudar fenômenos tão distantes de nosso dia a dia, com tantos problemas para serem resolvidos? A França ocupou o noticiário há algum tempo com a revolta de cidadãos, filhos de imigrantes, moradores na periferia de Paris e outras cidades.
Assim como o projeto espacial americano, o projeto espacial europeu, a lição a ser tirada não é somente a contribuição para a ciência. É o projeto em si! Fazer uma máquina deste porte, com imãs supercondutores que, para funcionar adequadamente, exigem temperaturas de -271,1 graus centígrados; parâmetros de construção que permitam aos feixes de partículas viajarem os 27 quilômetros, dando 11.245 voltas por segundo, concentrados em uma área com diâmetro um sétimo de um fio de cabelo e acompanhar o que está acontecendo, é um formidável problema tecnológico.
Para resolver este problema -o grande problema, a construção da máquina - milhares de cientistas e engenheiros e técnicos se debruçaram sobre milhares de pequenos problemas. O resultado concreto (e mais palpável disto) são os novos materiais, novas técnicas, novos softwares, novos procedimentos, novas atitudes, novas interdisciplinaridades, novos engenheiros, enfim, novas tecnologias, novas inteligências, novas capacidades que, para além do conhecimento científico, se estabelecerão nos países diretamente envolvidos.
Em resumo, conhecimento! É este conhecimento acumulado o diferencial que permitirá a manutenção do desenvolvimento destes países no contexto da quebra de paradigma proporcionada pela tecnologia com valor agregado em conhecimento aos bens competitivos no mercado. E os tornarão mais competitivos. E suas empresas mais competitivas. E seus produtos ocuparão as nossas prateleiras cada vez mais. Se as políticas de desenvolvimento destes países e a apropriação da renda proporcionada por este conhecimento são as mais adequadas é outra discussão.
Pode-se perguntar: eles (os países ricos) fazem estes projetos por que são países ricos? Ou são países ricos por que fazem estes projetos? Para mim a resposta é clara. Assim como o projeto espacial americano, o que importa não é somente o resultado científico ou político (a chegada à Lua, a Marte ou a descoberta da existência do bóson de Higgs, etc.), embora o resultado contribua para a viabilidade econômica do projeto, mas é o projeto em si. É o problema. É o fazer! Devemos, portanto, fazer uma máquina dessas? Não necessariamente. Mas devemos nos colocar desafios, projetos de grande porte, de grande alcance, para formar as inteligências que permitirão o desenvolvimento, a qualidade deste desenvolvimento e a nossa capacidade competitiva!
Esta é uma questão para decisão em escala nacional. Mas o projeto em si, não deve considerar somente a confecção de máquinas. Precisamos de projetos em instâncias regionais e locais. Qual será o nosso projeto?

IVAN FREDERICO LUPIANO DIAS é professor do departamento de Física da Universidade Estadual de Londrina

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