Faz-se da cri­se
um me­ca­nis­mo pa­ra
a eli­mi­na­ção da
ne­go­cia­ção sa­la­rial e
in­di­re­ta­men­te im­ple­men­tar
a ne­ces­si­da­de de uma
re­for­ma ­trabalhista



Entra ano, sai ano e o sonho do trabalhador por um bem-estar melhor parece cada vez mais longínquo. Os efeitos desastrosos da crise financeira mundial batem à porta do trabalhador. Eles já podem ser percebidos pelas demissões que estão ocorrendo nas empresas. A dificuldade que o trabalhador terá em reajustar o seu salário, ou quando não, evitar a redução salarial é uma realidade. Isto porque, o agravante, é a idéia forte que predomina tanto no setor privado como no público, o da ''existência de entendimento'' de que o trabalhador não é mais objeto de exploração e de lucro do capital como nos tempos em que se defendia a luta de classe.
O discurso da classe nos dias de hoje cheira ''ranço'' tanto para a direita como para a ex-esquerda. A classe para eles deixou de ser referência política. A referência passou a ser o indivíduo. E, com ele as suas qualidades. Fala-se da competência, da eficiência e da eficácia do trabalhador para a empregabilidade, como se só dependesse dele, querer estar empregado e assegurar a produtividade para uma melhoria salarial. O desemprego seria para eles resultante da ausência de mão-de-obra ''qualificada'' que demandaria a alta tecnologia utilizada nas indústrias. E, a marginalização impiedosa e passiva de um imenso número de trabalhadores que o capitalismo não consegue incluir, ou, o sistema como se não funcionasse de forma a estabelecer uma relação contraditória: mais qualificação mais desemprego, deixou de ser compreensivo. Isto é, de que o trabalho quanto mais qualificado, mais produtivo é, mais produtor de mais valia e mais excludente e que uma parcela significativa da população independentemente da qualificação não será incluída pelo sistema.
Por incrível que pareça, o número de desempregados é constantemente ampliado de solicitantes por emprego. Ele está sendo atribuído à sua responsabilidade pela sua própria situação. Eles próprios se acusam daquilo que são vítimas. O desemprego, efeito da essência do capitalismo, busca compartilhar a penúria com o trabalhador e, consequentemente, faz-se da crise um mecanismo para a eliminação da negociação salarial e indiretamente implementar a necessidade de uma reforma trabalhista.
As crises econômicas produzem além da desintegração social: as guerras. Elas são formas extrema de reafirmar o poder da classe dominante. A desintegração social e a guerra causam profundas convulsões na sociedade. Elas colocam os grupos dominantes numa posição de força e de agressão de um Estado sobre o outro. O fato determinante é que a desintegração e a guerra são resultados de uma obscuridade de futuro para aquelas parcelas excluídas da cidadania. A ausência de futuro se incorporou nas camadas excluídas da sociedade, pelo trabalho fragmentado, precário e flexível. Não é possível dissociar a crise financeira das forças dominantes com as forças dirigentes do capitalismo, agora agravada pela crise da ex-esquerda com mais ferocidade para o trabalhador.
No horizonte do trabalho a perspectiva de dias melhores está ligada às reais condições da democracia. Em países desenvolvidos onde se logrou a construir uma democracia real, isto é, ir além das normas de inclusão e exclusão do exercício de cidadania, a perda dos direitos sociais, já é uma realidade. E, nos países subdesenvolvidos onde sequer conseguiu alcançar os direitos sociais, o trabalhador tem um desafio muito grande, barrar as reformas que possam retirar os poucos direitos sociais garantidos.
Ampliar a democracia é o desafio do trabalhador. Mas, aqui também tem a sua contradição. O limite da democracia no capitalismo é o avanço do direito social e a consequência do limite social é a fragilização do trabalhador como classe. Vale dizer que o capitalismo vai contra a democracia. Enquanto, persistir o capitalismo, tem-se uma integração seletiva, alguns serão integrados e outros não. A integração é subordinada à ordem capitalista. O assalariado está sujeito a esta ordem. A integração esbarra na ordem capitalista. O capitalismo não prevê exclusão, mas também não precisa as normas, para estabelecer a inclusão.
Daí, o trabalho assalariado e informal, o da exploração de mulheres e das crianças em quantidade e qualidade diferenciada ou quando não se tem uma inclusão seletiva, individualizada nos trabalhadores de instituições de controle social que agem na democracia real, resultado da ordem capitalista.

JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina

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