Ca­da guer­ra é uma
der­ro­ta pa­ra to­dos.
Nun­ca há um ven­ce­dor.
Na vi­tó­ria, há ­dias de
ale­grias que lo­go se
aca­bam e a tris­te­za é
­maior pe­los mu­ti­la­dos,
ór­fãos, ci­da­des ­destruídas



Na Idade Média a principal e mais sangrenta guerra européia aconteceu entre a Inglaterra, com grande poder bélico, e a obstinada e resistente França. Dentre os diferentes motivos estava a disputa por Flandres (atual Bélgica e Países Baixos), produtora de tecidos. Esta guerra causou problemas transformando a vida econômica, social e política da Europa. A chamada Guerra dos Cem Anos durou 116 anos (1337-1453).

Não considerando o que reza o Velho Testamento (Abraão, já idoso, recebeu de Deus o chamado para Canaã, com a promessa de que seus descendentes dariam origem ali a uma grande nação, teve dois filhos com duas diferentes mulheres e uma briga eterna com os descendentes de cada filho), esta guerra entre árabes e judeus vai completar 61 anos no próximo dia 14 de maio, data da criação do Estado de Israel. Este confronto não tem data para acabar. Não se pode negar aos judeus o direito de ter um país livre e democrático, assim como os árabes deveriam ter o direito de manter sua identidade. Nem a Organização das Nações Unidas ou os Estados Unidos são capazes de obter trégua ou paz, a não ser que os participantes assim o decidam: eles lutam por suas verdades e gostam de decidir os seus próprios destinos. Alguns são fanáticos demais para racionalizar sobre vidas ou destinos.

É fácil saber que esta guerra não tem data para acabar porque em poucos anos o Irã estará apto a construir sua primeira bomba e não terá critérios em usá-la em nome de Deus. Americanos e israelenses tentarão interditar isso a qualquer preço, o que dará continuidade ao conflito.

A guerra não é um fato só do Oriente Médio. Quando não estamos pressionados pelas circunstâncias e dificuldades das coisas que nos rodeiam, estamos pressionados pelos nossos próprios medos e extravasamos muitas vezes com guerras como nos mostra a história: umas sem sentido, outras sem porquês, poucas por justiça. Mas o homem sempre viveu e viverá no meio das guerras que cria e sustenta: se faz guerra por divisas, por religiões, por mulheres e, quando não se tem motivo, até para espantar o tédio.

Se olharmos no eixo histórico tantas guerras sangrentas do passado, hoje analisadas, parecem sem sentido. Milhares de vidas e dinheiro foram gastos para se combater o comunismo que está desaparecendo sozinho. As cruzadas, movimento militar de caráter cristão que partia da Europa Ocidental com o objetivo de soberania na Terra Santa, levaram muitos anos e muitas vidas. Tudo continua muito parecido.

Como três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) que acreditam no mesmo Deus, se prendem a metáforas e, com uma compreensão literal, se desentendem hoje, ontem e sempre? É tão difícil manter a paz, que os poucos que se atreveram ficaram na história: Ghandi, Dalai Lama, Luther King, Paulo VI. A maioria dos grandes homens fez guerras. Papas fizeram guerras, John Lennon escrevia sobre a paz e vivia em guerra com seus parceiros, com suas parceiras e com ele mesmo.

A guerra não acontece apenas, como dizem alguns, para manter maiores as propriedades dos que as possuem e aumentar a miséria dos que não possuem, mas pela própria maneira de ser do homem que não consegue se manter em paz. Embora cada guerra tenha seus motivos, ela é uma derrota para todos que dela participam ou assistem. Nunca há um grande vencedor. Na vitória, há dias de alegrias que logo se acabam e a tristeza é maior pelos mutilados, órfãos, cidades destruídas. Mesmo assim, vamos continuar com essa intercepção da comunicação entre os homens.

A Torre de Babel existe. E em todos os lugares existem homens cobertos de razão, donos das guerras, o que torna pertinente a frase do poeta Ferreira Goulart: ''Eu não quero ter razão, eu quero ser feliz''. É preciso aprender a ser feliz, a ter paz dentro das guerras, porque elas continuarão. Assim como sempre haverá pobres entre nós, sempre haverá guerras. Pena que na maioria das vezes as grandes guerras são praticadas por jovens perdidos e manipulados, quase sempre em uma luta desigual.

Leon Tolstói fala sobre uma teoria fatalista da história, onde o livre-arbítrio não teria mais do que uma importância menor onde os acontecimentos só obedeceriam a um determinismo histórico natural. Fidel Castro, caquético no seu leito de quase morte disse em março de 2008: ''Já se escutam com força as trombetas da guerra''. Uma contradição com o que disse John Kennedy: ''O homem tem que estabelecer o final da guerra, senão, a guerra estabelecerá um final para a humanidade''.

NELIO ROBERTO DOS REIS é professor universitário em Londrina

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