O pri­mei­ro ajus­te é
ti­rar a po­li­ti­ca­gem
do PAC, se­le­cio­nan­do
­obras prio­ri­tá­rias nos
lu­ga­res ade­qua­dos.
Sem de­do po­lí­ti­co
e fa­vo­re­ci­men­to a
gru­pos ­estaduais




O presidente da República é um otimista incorrigível porque não lê jornais e revistas. Sem o coquetel cotidiano de informação e análise, Lula se livra do ''problema da azia'', como confessou à revista Piauí, podendo esbanjar permanente sorriso e externar confiança extrema nas coisas em que acredita. Agora se compreende a razão por que S. Exa., à imagem e semelhança de Deus, passa a impressão de que escreve certo por linhas tortas. Errados são os que se dedicam ao exercício da leitura dos textos da imprensa. Leitores que se deparam com a manchete de que a produção industrial acaba de levar o maior tombo em 13 anos não podem ver nisso motivo de apreensão, se guiados pela ótica presidencial. É apenas a onda de uma ''marolinha que não serve nem para surfar''.
Menos, presidente. Neste momento, a situação do País está a exigir bom senso. Há uma tempestade em plena gestação. Os discursos, mesmo recheados de arroubo, não conseguirão evitar a avalanche. As crises, como se sabe, agregam fatores de natureza psicológica e, nessa vertente, é compreensível o esforço do comandante de uma nação para elevar o ânimo social e promover a articulação das energias em torno do bem-estar coletivo. Estribado na montaria do carisma e na alta popularidade, Lula convocou a população a ir às compras no final de ano. O resultado ficou aquém do esperado (alta entre 3,5% a 5%), a denotar que o brasileiro sabe distinguir a linha da verdade entre as curvas apelativas para explicar o tamanho da crise. Transparece a incongruência do comandante-em-chefe quando incute nas pessoas a ideia de que o Brasil é um motor de arranque no mundo que puxa para trás uma locomotiva financeira que, segundo Henrique Meirelles, presidente do BC, já queimou US$ 29 trilhões.
Compreende-se que Luiz Inácio, em desabafo, divise ''olho gordo'' nos grupos que desejam vê-lo ''lascado'', conforme garante. O presidente Fernando Henrique queixava-se de ''fracassomaníacos'' que torciam contra seu governo. Ocorre que a doença que ameaça corroer a economia brasileira não pode ser ruim para uns e boa para outros. Todas as partes do corpo nacional sofrerão mazelas. Este é o foco da mensagem que se espera de Lula e dos homens públicos.
A tentativa de arrumar o caleidoscópio com o traçado da verdade pode começar com esse tal de PAC, o Programa de Aceleração de Crescimento, que se veste, a cada dia, com o manto da panaceia. Para uns, será a ''salvação da lavoura'' da presidenciável ministra Dilma Rousseff, se, claro, as obras obedecerem ao calendário. Para outros, a continuar empacada, essa montaria, sem liderar a corrida na pista, pode jogar a mãe das obras do governo no despenhadeiro. O primeiro ajuste é para tirar a politicagem desse plano, selecionando obras prioritárias nos lugares adequados e na agenda possível. Sem dedo político e favorecimento a grupos estaduais.
A segunda correção pontual aponta para o colchão social. A controvérsia, nesse ponto, sobe ao cume da montanha. Hoje, 11 milhões de famílias recebem o Bolsa-Família. E a fila para entrar no programa é de 2,2 milhões. Trata-se de um programa sui generis. O País cresce. A economia amplia seu raio de ação. Mas a cada ano, em vez de diminuírem, os desamparados aumentam. Que lógica é essa? Pessoas assistidas deveriam, ao correr do tempo, procurar a porta de saída do assistencialismo.
O programa contribuiu para trazer milhões de brasileiros à mesa do consumo. Os efeitos perversos, porém, multiplicam-se. Um olhar sobre a paisagem nordestina, neste final de ano, flagra o crime perpetrado por esse tipo cego de paternalismo. Multidões de pessoas ociosas se multiplicam na paisagem. Há relatos de trabalhadores que rejeitam a carteira assinada para não perder o benefício. Prefeitos procuram mão-de-obra para os serviços municipais. Não conseguem. A criminalidade se expande. Duas são as razões: a migração de gangues do Sudeste, que descobriram o Nordeste como espaço ideal para as ações criminosas; e a descoberta do celular por grupos de jovens - muitos beneficiados pelo Bolsa-Família - para negociar sequestros relâmpagos e comercializar drogas.
A violência se expande na região sob o colchão amortecedor do governo Lula. Se os traços do paternalismo e da ociosidade matizam a cultura nordestina, hoje encontram fortes eixos de apoio.

GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político em São Paulo

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