O pla­no ‘Vin­gan­ça
­justificada’ vem sen­do
cum­pri­do vi­san­do a um
ob­je­ti­vo ­maior: ar­ra­sar
Ga­za, tor­nar in­su­por­tá­vel
a vi­da dos pa­les­ti­nos
e for­çá-los a emi­grar
pa­ra ou­tros ­territórios




A análise da recente guerra que ocorre no Oriente Médio deve levar em conta o contexto histórico dos últimos anos. Tudo leva a crer que esta ação faz parte de um plano muito mais abrangente à ocupação da Faixa de Gaza. Em 2001, ainda no governo Sharon, foi elaborado o plano denominado ''Vingança justificada'' que tinha como objetivo destruir a autoridade palestina na figura de Yasser Arafat, neutralizar a força armada palestina e a longo prazo expulsar os palestinos de seus territórios: Gaza e Cisjordânia. Isso quer dizer uma reviravolta na política israelense a partir de Ariel Sharon. E se alguém ainda aposta numa vontade do país judeu de encontrar uma saída pacífica com os palestinos, isso faz parte do passado. De que forma?
A resposta está num outro objetivo do plano que consistia em, após eliminar a autoridade palestina, dividir as negociações com os territórios separadamente, minando a união palestina e, consequentemente, sua força política e militar. A partir do surgimento do Estado de Israel foi constante a diminuição do território palestino, que perdeu muitas áreas com as ocupações daquele país e se tornou um território fragmentado que só conseguia uma unidade política devido ao peso de um líder, constituído historicamente, como Arafat.
Vejamos a parte deste plano que já foi concretizado e o que ainda está por vir: 1- A repentina morte de Yasser Arafat em novembro de 2004, ainda não totalmente explicada e sob suspeita de um assassinato muito bem planejado pela inteligência do exército israelense, fomentou a divisão da autoridade palestina em Hamas e Fatah.
2- A remoção em 2005, ainda no governo de Ariel Sharon, de toda a população judaica do território de Gaza que, antes de sair, destruiu suas residências e outros bens materiais fixados no território palestino. O que naquele momento pareceu para a opinião pública como um ato de boa vontade por parte de Israel e foi visto como uma vitória para os palestinos, agora fica claro. Foi tudo muito bem planejado dentro de uma grande estratégia de evacuar o povo judeu de Gaza visando protegê-lo de futuros ataques maciços como os de agora. Nesse período, Gaza foi se transformando aos poucos num grande campo de concentração devido ao isolamento imposto por Israel.
3- Em 2006, o Hamas, que não reconhece o Estado judeu e é considerado uma organização terrorista por Israel, venceu as eleições na Palestina que passou a ter dois líderes: Ismail Haniyeh do Hamas, na Faixa de Gaza, e Mahmoud Abbas do Fatah, na Cisjordânia, este último reconhecido por Estados Unidos e Israel. Assim, o objetivo de separar a autoridade palestina entre os dois territórios foi alcançado. É bom lembrar que foi Israel, justamente no dia 4 de novembro de 2008, dia das eleições americanas, que rompeu a trégua com os palestinos ao atacar a Faixa de Gaza, alegando que o Hamas estaria fazendo túneis em território judeu. A consequência foi o aumento do cerco a Gaza privando ainda mais sua população de alimentos, combustíveis e medicamentos, além da escalada dos ataques tanto dos foguetes palestinos, como da potente máquina destruidora de Israel.
Tudo indica que o plano ''Vingança justificada'' vem sendo cumprido visando a um objetivo maior: arrasar Gaza, tornar insuportável a vida dos palestinos e forçá-los a emigrar para outros territórios como Egito, Jordânia e Líbano. Caso a ''faxina'' em Gaza tenha o êxito esperado, o destino da Cisjordânia poderá ser o mesmo. A guerra na Palestina, com um saldo até o momento de mais de 900 mortos na Faixa de Gaza, incluindo mais de 200 crianças, evidencia uma tragédia humanitária bem planejada por Israel.

FÁBIO CÉSAR ALVES DA CUNHA é geógrafo e professor de Geopolítica e Regionalização do Espaço Mundial do departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina

mockup