ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Rafael Bianchi Silva 
Mais do que a compra
da mão-de-obra, o
trabalho é a compra
da vida humana. E o
mais interessante é
que nos encontramos
direcionados a não
apenas aceitar essa
lógica como reiterá-la
Muitos foram os pensadores que refletiram o sentido do trabalho. Por mais respostas que construímos no caminho até aqui realizado, ainda restam questões a serem investigadas. Uma delas é o sentido subjetivo do trabalho, ou seja, quais os impactos que o ato de trabalhar gera em cada ser humano que é trabalhador.
Ainda que o mundo do trabalho contemporâneo tenha flexibilizado as relações entre empregador e empregado - gerando novas formas de interação e com ela diferentes tipos de envolvimento trabalhador-empresa; novos modelos de pagamento pelo trabalho; novas formas de organização do trabalho, etc. - parece que a pergunta central é a mesma: vale mesmo a pena trocar a vida pelo trabalho?
A pergunta retorna porque cada vez mais observa-se uma obsessão pelo trabalho. Se antes domingo era o dia de descanso, dia de igreja e dedicação à família, (ou como diziam os ''Titãs'', dia de ''Programa Silvio Santos''), atualmente é mais um dia comum, ''útil'' (entenda-se ''dia de trabalho'') como qualquer outro. O direito à preguiça torna-se algo distante. Ninguém consegue ficar parado. O tempo do descanso é mais um tempo para o trabalho.
Também não é difícil encontrar o discurso da necessidade indiscutível ao trabalho. Claro, afinal de contas, o trabalho gera o salário e com ele, as condições para sobrevivência. E mais: é com este salário que será possível pagar o dízimo da igreja, ter um momento de diversão com a família; conseguir comprar aquele bem que tanto se espera, reformar a casa ou seja lá o que for.
Pergunto, então: de que adianta tudo isso se existe certa impossibilidade estrutural de aproveitar essas mesmas coisas que tanto se busca? O viver virou suporte ao trabalho, quando na verdade, o trabalho deveria levar a novas formas de um melhor viver.
Ainda dentro dessa ótica - perversa - encontramos um outro problema. Mais do que a compra da mão-de-obra (ou seja, da força de trabalho de alguém), o trabalho na contemporaneidade é a compra da vida humana. E o mais interessante é que nos encontramos direcionados a não apenas aceitar essa lógica como reiterá-la.
Vejamos de perto um exemplo bastante simples. Como professor, é comum ouvir a demanda por melhores condições de salários, sempre em primeiro lugar em relação às melhores condições de trabalho, como se a saúde e a felicidade fosse passível de venda, um produto descartável ainda que muito valioso, pode ser vendido.
O trabalho é comprado pelo tempo. Vejam os concursos públicos, por exemplo. Eles apontam inevitavelmente 40 horas/semanais, como o que estivesse em questão fosse o tempo e não a tarefa a ser executada. É bem verdade que existem trabalhos e trabalhos. Mas o que está sendo colocado em questão não é o trabalho realizado, mas sim, aquele que não acontece, mas que é pago da mesma forma. Não se compra força de trabalho. Se compra a vida.
Assim aponto para um outro problema que vai além da mais-valia: além do lucro explorado da mão-de-obra, encontramos a falsa visão de que o trabalho liberta porque ele possibilita viver. Mas assim como nos campos de concentração, a vida que resta é o ''bagaço do fruto'' que a própria lógica rearranja nos discursos de amor à empresa.
Estava certo Lacan quando colocou que a vida humana era uma escolha entre a bolsa e vida. Se é o trabalho que está em jogo, a vida é a moeda de troca e qualquer valor a ela equiparada é apenas um último suspiro do corpo que padece.
RAFAEL BIANCHI SILVA é mestre em Educação e psicólogo em Londrina


