Feliz ortografia nova
Cristiano Júnior Balla


A língua que escrevemos é viva, modifica-se através do tempo e é influenciada pela fala. Há cerca de duas décadas tentou-se elaborar uma reforma ortográfica para que a língua portuguesa fosse escrita da mesma forma em todos os países que a utilizam: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe. Essa reforma foi formalizada entre os países lusófonos e transformou-se em acordo de unificação da grafia, possibilitando que esses países irmanados se entendam melhor por meio de documentos e tratados internacionais oficiais, bem como na circulação padrão de suas literaturas.
A indústria gráfica já tem editado novos dicionários com as modificações ortográficas, e a Colip - Comissão de Língua Portuguesa do MEC - propôs que a reforma entre em vigor a partir de 1º de janeiro deste ano enquanto alunos das séries iniciais do Ensino Básico receberão livros revisados a partir de 2010 e os demais alunos, a partir de 2011.
Tais modificações ortográficas referem-se a: 1) Acento agudo: desaparece nos ditongos abertos ei e oi, como ideia e jiboia, mas permanecerão nas palavras oxítonas, como céu e herói; desaparece no i e u tônicos que formam hiato, como feiura, mas permanecem em saída e baú; desaparece nas palavras que têm acento na raiz, como arguis e redarguem. 2) Acento diferencial: permanece em pôr (verbo), pôde (passado); desaparece em pela e pelo (verbo pelar), pólo (substativo), pera (fruta) e para (verbo). 3) Acento circunflexo: desaparece em palavras terminadas em ee e oo (como veem e voo), mas permanecem nos derivados verbais de ter e vir (eles vêm, eles têm, etc.); 4) O sinal de trema desaparece, mas haverá trema em palavras estrangeiras, geralmente nomes próprios. 5) O hífen deixa de ser usado em palavras compostas cujo prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por s ou r, ou quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente, como em antissemita, extraescolar. A reforma perdeu uma grande oportunidade de rever as palavras compostas já que todos possuímos dificuldades relevantes na escrita delas. 6) O nosso alfabeto voltará a ter 26 letras com a incorporação do k, w e y, o que é muito acertado, pois muitos lusófonos já possuem essa letras em seus nomes de batismo por influência angloamericana. 7) Mudanças que afetarão mais a Portugal: os nossos colonizadores possuem palavras com c e p mudos que serão eliminados, como baptizar e acção. Também possuem palavras com h no início, como húmido e herva, resquícios etimológicos que serão eliminados. No entanto, em alguns casos o c pronunciado será de grafia facultativa, como em facto e sector; também serão opcionais a grafia de proparoxítonas e paroxítonas com acento circunflexo ou agudo, tais como gênio ou gênio (em Portugal).
Este breviário das mudanças ortográficas é um exemplo da transformação que a escrita terá a partir de 2009. Há que se lembrar que a língua, como constructo vivo, modifica-se diacronicamente pelo uso que seus portadores fazem dela. A reforma de unificação, embora pareça complicada, é mínima e superficial. Em recente pesquisa de campo, notou-se que em 50 redações, ocorreram cerca de 120 erros de grafia, revelando a dificuldade em se escrever corretamente. Isto se deve, em parte, à motivação originária da escrita alfabética como a nossa é, pois a motivação primária é fonética e os usuários da língua tendem a escrever como se pronuncia, daí os erros, uma vez que não levam em conta as motivações fonêmicas e etimológicas das palavras.
A fala e a escrita possuem um distanciamento entre si, já que a língua escrita é muito mais conservadora e morosa para ser reformada oficialmente, ocasionando a perda de riquezas lexicais que deveriam ser incorporadas, mas que se perdem no tempo. Quando a motivação diacrônica vai deixando de existir, o resultado é um amálgama de relações motivadas e arbitrárias, o que nos deixa a impressão de falta de lógica na língua, tantas vezes questionada (com razão) pelos nossos alunos de português.
CRISTIANO JÚNIOR BALLA é pós-graduado em Literatura e Linguagem e escritor em Bandeirantes

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