ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de janeiro de 2009
Paulo André Chenso 
Considero uma
vergonha e um
desrespeito sem
tamanho nunca serem incluídas questões sobre
a arte e os artistas
paranaenses no
vestibular da UEL
Se a Arquitetura é uma arte, como vemos na definição dada tanto em dicionários da língua portuguesa como nos próprios livros de História da Arte, então por que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) insiste em não colocar a prova de artes do seu vestibular como uma das obrigatórias aos candidatos a uma vaga ao curso de Arquitetura? O cidadão pleiteia uma vaga para Arquitetura, mas não faz a prova justamente de artes!
No último vestibular a terceira questão da prova de artes solicita ao aluno reconhecer obras do barroco brasileiro e pede que indique apenas aquelas pertencentes ao barroco mineiro. Na resposta, a imagem de um anjo é indicada como não sendo da arte mineira. Da maneira como está colocada na questão, é impossível saber se aquele anjo é da escultura mineira, carioca ou nordestina, ou mesmo um anjo europeu. Para piorar, a foto é em preto e branco. Gostaria que a questão fosse apresentada a um professor de Escultura da UEL. Duvido se ele seria capaz de responder com segurança e no tempo dado aos candidatos. No entanto, apresentam-na a alunos do nível médio!
Há ainda o marcante desequilíbrio na distribuição das questões: duas questões gerais; três questões sobre o barroco brasileiro; três questões gerais sobre o modernismo, incluída aí a Semana de 22 e o período de 1920/1930; uma questão sobre o modernismo gaúcho e o Clube da Gravura; três questões envolvendo Lasar Segall, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral - os mesmos de sempre! - e novas questões sobre concretismo e neoconcretismo.
Se levarmos em conta a arte do século XIX, a beleza provocante da arte da Belle Époque e o incontável número de vertentes modernistas desenvolvidas pelos nossos artistas no século XX, como pode uma universidade produzir uma prova sintética de apenas 20 questões e ''gastar'' nove (cerca de 45%) da prova com apenas duas escolas? De que adianta o ''programa'' oferecido às escolas do nível médio, que é de onde vêm os futuros alunos da universidade? Se o professor de artes omitir toda a história da arte e ensinar apenas duas correntes modernistas brasileiras ele terá ''preparado'' melhor o seu aluno que aquele que, dedicadamente, tentou mostrar ao aluno a história geral da arte.
A UEL é mantida pelo Estado do Paraná, o qual, por sua vez, aufere tais recursos através dos impostos pagos pelos cidadãos paranaenses e suas empresas. No entanto, a sensação é de que nossa universidade é, na verdade, paulista, carioca ou mineira, menos paranaense! Considero uma vergonha e um desrespeito sem tamanho nunca serem incluídas questões sobre a arte e os artistas paranaenses.
Para a UEL, não existem Alfredo Andersen, Mariano de Lima, Theodoro de Bona, Guido Viaro, Poty Lazaroto, Nilo Previdi, Estanislau Traple, Zaco Paraná, João Turin, Emma Koch, Erbo Stenzel, Helena Kolody, Paulo Leminsky, Lala Schneider, Luis Mello, Loio-Pérsio, Fernando Velloso, Yara Sarmento, César Almeida, Edson Bruno, Silvanah Santos, Mario Bortolotto, Armando Maranhão, José Luiz Fiani, Luis Carlos Paraná, além de ilustres ''estrangeiros'' que adotaram nosso Estado, como Silvio Back e Juarez Machado.
Há ainda os artistas londrinenses, igualmente jamais lembrados, como Letícia Faria, Yoshia Nakagawara - ilustre professora da UEL e grande artista (e, se me permitem, minha inesquecível professora de Geografia, em idos anos) - o decano e respeitabilíssimo Paulo Menten, a valorosa Nitis Jacon, responsável direta pelo sucesso do Filo, e a turma do cinema brilhando por aí afora e abocanhando prêmios em festivais de cinema, como o recente ''Booker Pitman''.
Que me perdoem os incontáveis nomes de nossa arte por mim omitidos, mas o espaço do jornal é implacável! Acorda UEL! Afinal, somos nós, paranaenses, que a sustentamos!
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico, historiador e professor de História da Arte em Londrina


