ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de janeiro de 2009
Paulo Muniz 
O Brasil registra um
déficit em transações
correntes cada vez
maior. Isso significa
que o valor de tudo
o que sai do país
é cada vez maior que
os recursos que entram
No final do Governo FHC, o Brasil exportava um volume de US$ 60,4 bilhões. Hoje, as exportações chegam perto dos US$ 200 bilhões por ano. No último ano do Governo FHC, o Brasil arrecadou R$ 200 bilhões em impostos. Em 2008, a arrecadação federal passou dos R$ 600 bilhões.
Como podemos ver, através desses números, o Governo Lula não teve dificuldades nos últimos seis anos, principalmente, por causa da ''maré mansa'' no mercado internacional. Nunca se exportou tanto, nunca tivemos uma situação tão tranquila como essa que o Governo Lula herdou.
Mesmo assim, durante todo este período não foram realizadas as reformas necessárias - política, tributária, fiscal, trabalhista e tantas outras que poderiam alavancar ainda mais o Brasil e deixar o país em situação mais favorável para enfrentar a crise mundial.
O que vem por aí é um momento muito difícil. Não adianta tapar o sol com a peneira, querer disfarçar, ser otimista demais, porque é preciso alertar a população sobre a crise que pode se transformar em recessão. Em alguns países, a economia está regredindo. Isso é péssimo para o Brasil, afinal, vamos produzir e vender para quem?
Aos poucos, a dura realidade da crise financeira e econômica que se espalha pelo mundo a partir dos Estados Unidos chega ao Brasil. Mesmo assim, a maioria dos brasileiros ainda não se deu conta do real tamanho dessa crise.
Um dos principais setores que sustentaram o crescimento do país nos últimos anos foi o de exportações. Liderado pelo que os economistas denominaram como superciclo das commodities, uma alta recorde do preço dos produtos agrícolas, minério de ferro, aço, matérias-primas e produtos básicos, setores onde o Brasil é forte. A alta das commodities no mercado internacional impulsionou o setor no país, além do crescimento da indústria automobilística. Durante oito anos consecutivos, o Brasil teve superávit crescente na balança comercial, ou seja, exportou mais do que importou.
A partir do ano passado, no entanto, tal tendência se inverteu. Em 2007, embora o país ainda tenha tido superávit, seu valor foi menor que no ano anterior. Já em 2008, a expectativa era de nova redução. Esperava-se um superávit de US$ 23 bilhões, quase a metade do ano anterior. Como se isso não bastasse, prevê-se também um déficit na balança comercial de 2009. Seria o primeiro déficit em dez anos.
Isso ocorre devido à baixa do preço das commodities no mercado internacional, além da perspectiva de drástica redução da demanda por esses produtos. Desta forma, a alta do dólar, que em tese beneficiaria o setor exportador, já que seus produtos ficariam mais baratos, é anulada pelos efeitos da recessão mundial.
Além disso, o Brasil registra um déficit em transações correntes cada vez maior. Isso significa que o valor de tudo o que sai do país é cada vez maior que os recursos que entram. A fuga de capitais e a remessa de lucros transferem rapidamente os recursos para cobrir o rombo já provocado pela crise lá fora.
Até 2007, o Brasil acumulava superávit nas contas externas, ou seja, entrava mais recursos do que saía. Para 2008, o Banco Central previa um déficit de US$ 30 bilhões. Isso ocorre porque a economia do país é totalmente integrada à economia mundial. Por isso, apesar de a indústria automobilística, por exemplo, ter registrado recordes de venda ano passado, as montadoras representam o setor que mais remeteu lucros ao exterior. Suas matrizes amargam uma profunda crise e as filiais devem enviar seus recursos para cobrir parte desse rombo.
Outro aspecto dessa crise que já se manifesta de forma concreta no Brasil são os prejuízos bilionários que colocaram em xeque grandes empresas que resolveram especular com o dólar. Empresas do ramo de papel, como Klabin, Aracruz, Votorantim Celulose e Papel e Suzano terão grandes perdas. Prevê-se que a Suzano tenha prejuízo de R$ 127 milhões e a Votorantim, R$ 375 milhões, mas existe possibilidade de esse rombo ser bem maior.
Além da Aracruz, a Sadia, maior exportadora de frangos, também amargou prejuízos com a subida do dólar. Mais de R$ 760 milhões da empresa viraram pó em questão de dias. Embora o governo negue, alguns acreditam que mais de 200 empresas tenham se aventurado nesse tipo de investimento e agora contam suas perdas. Um prejuízo tão grande não passa despercebido e suas consequências serão profundas, assim como os reflexos da crise em todos os seus aspectos.
PAULO MUNIZ é empresário em Londrina


