Se um es­tu­dan­te
pre­ci­sa que al­guém
lhe en­si­ne que não é
le­gal cha­par o ca­be­ção
e de­pois in­va­dir um
hos­pi­tal, cau­san­do
trans­tor­no aos pa­cien­tes,
não de­ve­ria vol­tar
aos ban­cos da fa­cul­da­de,
mas pa­ra o ­berço



Há semanas alguns professores universitários escrevem tentando minimizar ou absolver o ato dos pretensos médicos da UEL nos corredores do Hospital Universitário no dia 20 de novembro do ano passado. Casos dos artigos ''A transgressão e a juventude'' (19/12), do médico Walter Marcondes Filho, e ''Quem nunca errou?'' (30/12), do professor Nelio Roberto dos Reis. Um dos professores usa o argumento mentiroso de que ''nós suportamos o mensalão'' por que punir os alunos? Quem suportou o mensalão? A sociedade repudiou e exigiu atitude.
O professor Nelio chega a ponto de usar a Bíblia para defender os pretensos médicos. Ele começa falando de Maria Madalena e dá à sociedade uma nova premissa do Direito: só poderá ser punido quem nunca errou. Abram as portas dos presídios. Liberem o desmatamento, o genocídio, os acordos, o estupro, a pedofilia... Quem neste país nunca errou? Depois, ele fala que os formandos de Medicina aprenderam a lição. Mentira! Eles recrudesceram, não se desculparam com a sociedade. Estão escondidos, acovardados em suas trincheiras corporativas, protegidos pelos seus pares, sentindo-se injustiçados, fazendo piada sobre o fato. Os outros formandos foram igualmente coniventes, nenhuma manifestação de repúdio ao ato, mas solidariedade com a falta de ética.
O sr. Nelio parece não ver virtude nestes 14 formandos, então cita como algo louvável o fato dos alunos terem terminado o curso de Medicina (!). Acha ainda que eles foram amorosos com pacientes. Errado. Eles não demonstraram amor. O paciente para eles é uma ferramenta de trabalho. Basta ouvir o que eles gritaram pelos corredores do HU. Eles só invadiram o hospital porque não veem os pacientes como pessoas, mas como objetos de estudo, não têm por eles respeito ou empatia. Já dá para se ter uma idéia de como eles tratarão os pacientes do SUS. Nelio defende ainda que ''o que deveria ser respeitado é o projeto de Lei 3.205, que proíbe a venda de álcool próximo a estabelecimentos de ensino''. Ou seja, quem errou foi o bar.
O professor finaliza seu argumento conclamando cidadãos a perdoar, mas não todos: perdoar apenas os formandos da UEL. O seu perdão não se estende aos ''doutores que praticam abortos, fazem cirurgias desnecessárias, torturam ou assediam inocentes''. Parece achar que os médicos que praticam crimes começam a fazê-lo de uma hora para outra: recebem uma proposta formal do mundo do crime? Não! O criminoso manifesta uma moral torta já na faculdade, com atitudes covardes, desrespeitosas, falta de humildade, de ética, etc. Mas se dependesse do sr. Nelio, estes não seriam punidos como deveriam. Afinal, ele chama o episódio protagonizado pelos quase médicos de ''vacilo''. Eufemismo moral.
O professor teria esta mesma tolerância se sua mãe estivesse internada naquele hospital? O que aconteceria se a tradição fosse mudada e o alvo da invasão fosse a Santa Casa ou o Hospital Evangélico? A farra acabaria aí. A diferença entre um médico correto e um médico criminoso é que o correto, além de conhecer o ser humano, sabe respeitá-lo.
Alguns formandos alegaram que se trata de uma tradição, como a farra do boi ou a mutilação do clitóris. Até quando a tradição vai justificar atos de barbárie contra os desprivilegiados? Há ainda quem argumente que o problema é do curso, ética... Ora, se um estudante precisa que alguém lhe ensine que não é legal chapar o cabeção e depois invadir um hospital público, causando transtorno aos pacientes, não deveria voltar aos bancos da faculdade, mas para o berço. É lá que se adquire, ou não, ética e respeito. O mínimo que o londrinense deveria fazer é registrar o nome destes pretensos médicos e evitar, não só a eles, mas também aos planos de saúde que os abrigarem. A exceção fica àqueles que se mostraram realmente arrependidos. Você conhece algum?
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MÁRCIO AMÉRICO é escritor em Londrina

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