Brigar pelo emprego

  Desejo partilhar com vocês a certeza que nossa economia não vai entrar em recessão apenas porque as economias mais desenvolvidas estão começando a sofrê-la, a começar pela maior delas, os EUA. Lá a economia real já está sentindo profundamente os efeitos da perda de confiança que impede o funcionamento normal do sistema financeiro e bancário. A indústria e o comércio desempregam e o consumidor se retraiu fortemente, próximo do pânico.
  Os ventos da crise chegaram ao Brasil, afetaram duramente o mercado de crédito, inibindo a produção industrial e o comércio, mas tanto governo como consumidores estão reagindo de forma bastante razoável: o governo fornecendo os recursos para garantir o crédito à produção e o consumidor recorrendo menos ao crediário mas não deixando de comprar. As empresas por sua vez evitam recorrer às demissões como solução primária diante da retração das vendas, procurando na medida do possível fazer acordos para manter os postos de trabalho.
  Claramente estamos diante de uma agressão que só vai ser superada com a retomada da confiança e isso vai depender muito mais da capacidade de convencimento das lideranças políticas do que de quaisquer modelos ou programas econômicos. Não dá para esperar soluções técnicas quando a ameaça do desemprego se materializa. Os líderes políticos de todo o mundo estão se esfalfando na tentativa de inverter o clima recessivo, antes que cresçam as demissões de trabalhadores. Nas próximas semanas o leitor verá recrudescer no Brasil essa guerra que se trava essencialmente no campo minado da comunicação.
  Se o consumidor for levado a pensar que seu emprego está a perigo lá adiante e por isso deixar de comprar hoje, ele próprio vai criando as condições desse emprego ser suprimido no futuro. Foi para derrubar esse sentimento que o presidente Lula saiu em campanha pedindo aos brasileiros para continuarem comprando. Ele garantiu que seu governo não deixará que faltem recursos para sustentar o crédito para consumo e para a produção das fábricas e das fazendas.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

Ano bom é o que fazemos bom

  Não existem anos bons ou anos ruins, e nem eles são iguais para todos. Cada qual faz bons os seus dias, ou os transforma em tormento, dependendo de como administra os acontecimentos. Porque mesmo das turbulências é possível tirar lições e saber que nada acontece por acaso.
  Cada momento é apenas uma passagem de tempo linear e não altera a vida das pessoas, mas estas é que mudam o rumo das coisas, porque isto é do livre-arbítrio. Então, são elas que determinam todos os movimentos e influenciam inclusive as manifestações da natureza. As vibrações da mente e do sentimento e as imprudências do homem fazem irromper as tempestades e as tragédias humanas. No entanto, as pessoas culpam o acaso, a fatalidade, a vontade de Deus... Assim, ao atribuir a responsabilidade a um poder externo, imaginam que isto é algo que foge de seu controle e assim postam-se em cômoda posição.
  Não precisamos nos superar como pessoas mas sermos apenas naturais, bastando redespertar nossas tantas virtudes adormecidas e que hesitamos em acionar. Neste ano novo – se é que a virada de calendário é significativa para muitos como oportunidade de mudanças – podemos começar por ter mais paciência e colocar o coração sempre à frente, em todos os momentos.
  Isto se traduz por não formular avaliações mas encarar os fatos, bons e maus, menos com julgamento e mais com responsabilidade, policiando nossa propensão analítica e encarando cada coisa sem dar permissão a que o ódio se manifeste. Não significa ser indiferente ao que acontece e sim assumir, diante de tudo, uma postura de serenidade e não deixar que se turve a lucidez da consciência.
  Podemos ser mais duros diante de uma circunstância que o exija, mas sempre colocando à frente a boa intenção em cada movimento e em cada palavra. Se nos tornamos melhores, o mundo ao redor se tornará melhor. Será apenas uma mudança de atitude, com menos gasto de energia do que a consumida pelas nossas intemperanças. O ódio nos desgasta e nos faz piores, contaminando o ambiente e as pessoas que nos cercam. Ao invés de dizermos que este ou aquele foi um ano bom ou ruim, melhor é fazer uma auto-avaliação e saber se não fomos nós que nos comportamos melhor, ou nem tanto.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

Os artigos devem ter, no máximo, 60 linhas e mínimo de 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup