ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Nelio Roberto dos Reis 
Os escribas e fariseus trouxeram à presença de Jesus uma mulher surpreendida em adultério e disseram: a lei de Moisés manda que tais mulheres sejam apedrejadas. E o Mestre, escrevendo na areia, disse: Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra. A multidão começou a se retirar, começando pelos mais velhos, ficando apenas Jesus e a mulher. Se voltando para a mulher perguntou: Mulher, onde estão aqueles que te acusam? Se ninguém te acusa, nem eu tampouco te condeno.
Esta frase ensina que não devemos condenar em outra pessoa aquilo que desculpamos em nós ou julgar os outros mais severamente do que julgamos a nós mesmos. Todos nós trazemos, da nossa criação, defeitos e qualidades, todas as nossas virtudes e todos os nossos pecados confessos. Por que estamos julgando de forma tão severa os 14 alunos formandos de Medicina da UEL que comemoravam dia 20/11 a conclusão do seu curso?
Ninguém acha louvável a atitude deles. Um médico, dentro do seu hospital, não é só uma pessoa, deve ser um exemplo de ética e deve inspirar confiança. Não entra em um local onde se salva vidas fazendo barulho, com garrafas de bebidas e jogando spray de espuma. Esta deve ter sido a última e mais importante lição que aprenderam ali e que vão guardar para o resto de suas vidas. (Falo da cidade porque o curso de Medicina é um dos maiores orgulhos desta comunidade).
Mas estes formandos, depois de seis anos, mostraram grandes virtudes fazendo um curso que exige amor ao próximo ao atender a comunidade carente e que sofre na vista de severos professores, espírito de luta ao enfrentar dias e noites em cansativos plantões e também quem faz um curso médico, tampouco carece de fé e esperança. São fortes. O que deveria ser respeitado é o projeto de lei (número 3.205) que determina não vender bebida alcoólica a menos de 500 metros de nenhuma escola. Assim como o álcool causa acidentes de automóvel com todos nós, também causa embaraço para qualquer tipo de estudante de qualquer curso. Mas devemos ter a clareza de não punir, além do necessário, pessoas que deram exemplo durante uma vida e num momento de comemorar o maior feito de suas vidas tiveram minutos de vacilo. Esses formandos - não conheço nenhum deles - devem ser perdoados.
Deveríamos procurar a Justiça na esperança de viver melhor, ao invés de querermos um julgamento rápido e não importando o quanto eles podem ser cruéis. Parece que sentimos nas condenações alheias, o mesmo prazer que os romanos sentiam ao jogar cristãos para os leões. A Justiça por si só perdeu o valor. A hostilidade e o desprezo surgem naturalmente deixando desaparecer a compaixão pelos pecados pequenos. Temos muito dos sintomas de uma comunidade neurótica que abocanha e influencia toda uma cultura. A população nos seus momentos de crise, como a de Santa Catarina, parece saber o que faz (um dia isso pode acontecer comigo e gostaria que me ajudassem). Mas muitas vezes ficam em dúvida sobre o por que e o para que das suas atitudes. Não excluímos a importância real da caridade do homem, porém os elementos de arrogância, curiosidade e estupidez predominam contra a verdadeira noção do perdão.
Lembrando um pecado maior do que o cometido pelos estudantes, o rei Davi, autor de metade dos salmos bíblicos, ficou impressionado com a beleza de Beta-Seba, mulher de um dos seus valentes soldados, Urias. Desejou e a seduziu, depois colocou Urias na frente de batalha de maior força para que morresse e, pelo que se sabe, foi perdoado. Bem-aventurado, aquele cuja iniqüidade é perdoada. Por que não vamos atrás de pecados maiores? Dos doutores que praticam abortos, fazem cirurgias desnecessárias, torturam ou assediam inocentes.
NELIO ROBERTO DOS REIS é professor universitário em Londrina


