ESPAÇO ABERTO
A família de Jesus
Orlando Brandes
1. A genealogia de Jesus. Jesus é Filho de Deus e é filho da história humana. Sua árvore genealógica consta de grandes personalidades, mas também tem o lado frágil: Raab que é prostituta, Betsabéia que é adúltera. Jesus, Filho de Deus, é também filho da humanidade, filho de Adão. Pessoas estrangeiras fazem parte da genealogia de Jesus. Quanta lição podemos tirar para nossas famílias nas quais encontramos pessoas feridas e diferentes.
2. A gestação no seio de Maria. Jesus não é concebido pelo poder procriador masculino, mas por obra do Espírito Santo. Desceu ao útero de uma frágil menina de Nazaré. Foi concebido na pobreza, na fraqueza. Ele esvaziou-se de sua glória, aniquilou-se, se autolimitou para ser concebido e gerado. Correu o risco de ser abortado e sua mãe apedrejada, segundo a lei de Israel. Maria, com provações, interrogações, dificuldades, protegeu a vida intra-uterina de Jesus e São José, provado na fé, não abandonou Maria, nem rejeitou a gravidez.
3.. A família de Jesus era pobre. O Filho de Deus nasceu na pobreza. O resgate pago no templo foi um casal de pombos. Este era o jeito dos pobres cumprirem a lei. Jesus trabalhava com José na carpintaria de Nazaré. A pobreza não era só econômica, mas principalmente a família de Nazaré vivia a pobreza evangélica, esvaziamento de si, a obediência à vontade de Deus, a fidelidade no cotidiano.
4. A família de Jesus era religiosa. José fez como o anjo dissera (Mt 1,24). Maria meditava tudo em seu coração (Lc 2,19). Jesus ocupava-se das coisas do Pai (Lc 2,29). A espiritualidade da família de Jesus se comprova ainda nas peregrinações ao templo, no costume de participar da sinagoga (Lc 4,16), na intimidade com Deus e até na obediência às leis do império. Jesus crescia em idade, sabedoria e graça (Lc 2,52) no seio da Sagrada Família.
5. A família de Jesus era saudável e humana. O humanismo da Sagrada Família se manifesta em saber falar e silenciar na hora certa, em tomar decisões como foi a fuga para o Egito, em saber viver o segredo do cotidiano como lugar de crescimento e santificação. Maria e José sabem dar liberdade ao filho e o procuram quando ele permanece no templo. Aceitam o Mistério e ficam admirados de tudo o que ouvem dizer sobre o Menino. Manifestam seus sentimentos: ''Teu pai e eu, aflitos estávamos à tua procura, que fizeste?'' (Lc 2, 48).
6. A família de Jesus era uma escola de vida. Nazaré é o cotidiano vivido com amor, sem rotina e murmurações. A família foi uma escola para Jesus, onde Ele crescia em idade, sabedoria e graça e praticava a obediência. Viver bem o ordinário de cada dia faz a gente experimentar o extraordinário.
7. A família de Jesus experimenta o sofrimento. Jesus nasce fora da cidade e numa gruta. A família foge para o Egito. Os pais fazem a experiência da perda do filho. É provável que Maria ficou viúva e Jesus faz experiência da orfandade com a morte de José. Jesus é filho único e seus pais, muitas vezes, não sabem o que acontece com o filho e se admiram das coisas que o povo diz a seu respeito.
8. A família de Jesus era unida. Os pastores encontraram Maria, José e o Menino na manjedoura (Lc 2,16). Os pais levam o Menino a Jerusalém para a apresentação (Lc 2,22) e eles ficam admirados com a profecia do velho Simeão (Lc 2,33). A família é unida no sofrimento como é o caso da fuga para o Egito (Mt 2,13) e também a volta para Nazaré (Mt 2.21).
9. A família de Jesus tinha limitações. Jesus fez a experiência inaudita de ser filho adotivo. Não teve irmãos. Seus pais não compreenderam o que Jesus lhes disse quando o encontraram no templo (Lc 2,50). Não sabiam tudo, pelo contrário, ficavam admirados com o que diziam Dele (Lc 2,33). José e Maria não tiveram outros filhos, nem o relacionamento conjugal. Jesus é filho único e adotivo.
10. Jesus sabe deixar sua família. Deixarás pai e mãe (Gen 2,24). Jesus saiu de casa para a vida pública, tendo antes feito um retiro de 40 dias (Mc 1,12-13), porque cumpriu-se o tempo (Mc 1,15). Jesus está em plena vida apostólica. Sua mãe e seus irmãos foram vê-lo (Lc 8,20). A família de Jesus era uma família equilibrada, afetuosa, humana. Que gesto lindo da parte de Maria e dos irmãos (parentes) de Jesus. Deixar a família não é romper com os familiares.
ORLANDO BRANDES é Arcebispo de Londrina





