O Rio Tibagi atravessa o Paraná e está localizado totalmente dentro do Estado. É o terceiro em extensão, mas o primeiro em biodiversidade. Ao longo de seus 550 km de extensão estão projetadas para serem construídas, no mínimo, sete barragens para geração de energia hidrelétrica. Isto foi confirmado pelos representantes do Ministério de Minas e Energia em Londrina que apresentaram os aproveitamentos hidrelétricos do Tibagi, no último dia 8, numa reunião convocada pelo Ministério Público Federal em Londrina.
Entre as sete usinas projetadas neste rio, quatro delas estão incluídas no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Assim, o governo federal tem exercido muita pressão no governo estadual para liberar as licenças para a construção destes empreendimentos. A Usina Mauá, a de maior porte, está projetada na região média da bacia, que consiste de uma área prioritária para conservação e encontro de biomas e tipos de vegetacão. Desde 2005 os pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina vêm elaborando pareceres técnicos e também documentos oficiais (em número de 15), se posicionando contrários aos encaminhamentos realizados no processo de licenciamento da Usina Mauá. No entanto, os pareceres, documentos e ofícios, foram ignorados pelos representantes dos órgãos do governo, aos quais foram encaminhados.
Acontece que a Usina Mauá é uma obra do PAC e o seu reservatório é de acumulação para abastecer alguns dos outros reservatórios projetados na bacia. Devido a estes dois fatores nenhum dos argumentos dos pesquisadores foram atendidos, ou respondidos, pois por estar no PAC, parece que o governo não considera nenhum argumento, nem mesmo sendo oficial.
Atualmente, temos mais uma situação grave com pareceres e solicitações oficiais da UEL. A situação relatada nos pareceres é a análise de tecidos e órgãos de peixes coletados em trechos do Tibagi, onde se encontram as bocas de minas de uma mineração desativada, na área projetada para ser alagada pelo reservatório da Usina Mauá. Os resultados das análises revelaram altos valores de metais pesados (acima dos valores permitidos pela legislação) como chumbo, cádmio, cobre e mercúrio.
Por se tratar de um problema que afetará o consumo de água para a população de Londrina, outros órgãos do governo estadual entraram no cenário para atuar no questionamento sobre o descaso dos problemas já apontados no processo de licenciamento da Usina Mauá. Os novos atores deste cenário: Ministério Público Estadual e a Promotoria de Meio Ambiente, bem como o Conselho Municipal de Meio Ambiente em Londrina. Nós pesquisadores temos a expectativa que os representantes destes órgãos tomem providências em relação a esta última grave situação e também solicitem respostas ao Ministério de Meio Ambiente sobre as outras questões já encaminhadas que continuam sem respostas aos documentos oficiais enviados pela UEL.
Felizmente, os representantes dos órgãos Estaduais em Londrina (Comsema e Promotoria de Meio Ambiente) se sensibilizaram pela gravidade da situação. Penso que erramos nos encaminhamentos, pois sempre encaminhamos os documentos oficiais diretamente ao governador do Paraná e aos órgãos federais, Ministério Público Federal, que sempre acompanhou o processo de licenciamento da Usina Mauá, mas que também foi negligenciado pelo Ministério de Meio Ambiente e pelo governo paranaense.
Acreditamos que, agora, os novos atores e os resultados registrados nas análises de metais pesados encontrados na água e também nos peixes que comem seu alimento junto com o sedimento no fundo do rio, são argumentos que causam medo e podem servir para defender a população - que se encontra em maior número em Londrina - que será a cidade mais afetada.
Não nos importamos por nossos argumentos terem sido negligenciados pelos governos estadual e federal, mas ficaremos realizados se os metais encontrados nos peixes e na água sensibilizarem os representantes de Londrina que poderão atuar para impedir uma tragédia para a população e também para toda biodiversidade do Paraná. Ainda poderá impedir que prossiga uma obra do PAC, que não está respeitando a população e as leis ambientais.
SIRLEI BENNEMANN é pesquisadora de Ecologia de Peixes e professora da Universidade Estadual de Londrina

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