O papel da Medicina da UEL

Luís Alberto Casadei Abumussi
  Qual seria o papel de uma universidade? Em qualquer área, o papel de uma instituição de ensino deve estar sintonizado com as necessidades da sociedade que a mantém. No caso em questão, há dúvidas quanto ao cumprimento desse papel pelo curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Quais seriam as necessidades do município e da região no entorno de Londrina? Em primeiríssimo lugar, sanar as deficiências do atendimento ao SUS.
  E que papel desempenha a Medicina da UEL no atendimento ao SUS? Se esse papel se limita ao atendimento nas áreas internas dos hospitais Universitário e de Clínicas, como atuam os professores da UEL para que esse atendimento seja valorizado, digno e apreendido pelos alunos em sua formação? E os postos de saúde, há alguma participação da Medicina no seu funcionamento? E na organização dos vários níveis e diferentes serviços de atendimento à saúde em Londrina, a UEL tem alguma participação?
  A princípio, parece que esse papel não é exercido pela UEL. Pelo menos em sua plenitude. Exercer esse papel significa elaborar a rotina de sua principal atividade, ou seja, o ensino da Medicina, priorizando e dignificando o atendimento ao SUS. A instituição deveria conduzir suas diretrizes e seus profissionais, professores, médicos contratados e seus alunos para a importância desse atendimento na nossa tão carente sociedade. E assim, transmitir esses valores a seus formandos.
  Valores esses que não estiveram presentes na invasão do HU. Além dessas dúvidas, não respondidas, tenho outras, para as quais, também procuro resposta. Os professores valorizam essa prática de atendimento ao SUS? E a transmitem a seus alunos? Esse é um problema relevante e, por conseqüência, discutido pelos professores e alunos durante sua formação? Os alunos, quando se formam, têm plena consciência das necessidades e de seu papel na sociedade?
Essas necessidades mais prementes são relegadas a plano secundário e suas carreiras são direcionadas para o atendimento particular, onde o retorno financeiro é maior, fugindo o quanto possam do atendimento ao SUS?

LUÍS ALBERTO CASADEI ABUMUSSI é médico psiquiatra em Londrina



Superlotação: um drama da saúde

Jorge Carlos Machado Curi
  É com grande pesar, mas sem muito espanto, que recebemos a notícia de que certos hospitais de referência de São Paulo enfrentam graves problemas de superlotação. Segundo a imprensa, em alguns, pacientes em macas aglomeram-se nos corredores à espera de atendimento. São casos de traumas tratados lado-a-lado a outros males, muitos vezes contagiosos. Esse cenário, aliás, infelizmente não é inédito nem para a imprensa muito menos para a sociedade.
  Há anos vemos a triste conseqüência de um sistema incapaz de atender à procura, que é muito maior que sua capacidade. Falta de verbas, má distribuição de leitos, dificuldades administrativas. São várias as facetas apontadas por especialistas do setor. Outro fato é que o Programa de Saúde da Família (PSF) não cumpre adequadamente seu papel por ser insuficiente, ter problemas de estruturação, de falta de integração com a rede e de capacitação dos recursos humanos. São falhas que agravam ainda mais o gargalo da assistência, empurrando a população para os pronto-socorros dos hospitais.
  Os pacientes são, enfim, vítimas da inconsistência de um sistema que, a despeito de ser dos mais avançados do mundo por sua universalidade e integralidade, padece pela insuficiência de recursos e de gestão. Há anos que as entidades médicas denunciam que a falta de financiamento adequado está transformando a rede de saúde em um circo de horrores.
  Se o caos ainda não é completo, isso é um mérito de médicos, de outros profissionais de saúde e de alguns administradores competentes que lutam todos os dias, sem tréguas, para oferecer aos cidadãos uma assistência digna e de qualidade, mesmo tendo de superar tantas mazelas.
  A gravidade da questão, contudo, exige que a saúde pública seja tratada com respeito em todos os níveis e a toda hora, pois lidamos com vidas humanas, e não com máquinas. Não podemos mais ficar calados ante a insuficiência de recursos e materiais básicos nem à remuneração vil que afasta do serviço os melhores quadros.

JORGE CARLOS MACHADO CURI é presidente da Associação Paulista de Medicina

mockup