ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de dezembro de 2008
Gaudêncio Torquato 
Serra simbolizaria
mudança nas regras do
jogo e, com a trombeta
do antilulismo/petismo,
poderá canalizar energias
e mobilizar platéias
adormecidas. O desafio
que tem é o de segurar
o alto índice de 41%
Os horizontes de 2010 costumam ganhar o alcance da vista todas as vezes que os oráculos dos tempos modernos - as pesquisas de opinião pública - levantam os véus do futuro para satisfazer a insaciável sede do ser humano de saber se os deuses deixarão mais aberta ou mais fechada a rota de seu destino. Em se tratando do brasileiro, a curiosidade assume proporções fantásticas. No campo da política, o exercício premonitório virou moda. Para provar que não temos nada a dever aos gregos antigos, o País acaba de ver entronizada sua profetisa, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, elevada ao templo de Oráculo pelo senador José Sarney que batizou-a como sacerdotisa do governo.
Para entender melhor a nova qualificação da ministra, candidata in pectore de Lula à sua sucessão, lembremos que, nos idos da Grécia antiga, a sacerdotisa, mulher de vida irrepreensível, era escolhida para se comunicar com os deuses e trazer respostas aos consulentes sobre seu futuro, o da sua família ou da sua pátria. Um dos lugares mais venerados pelos gregos era Delfos, no golfo de Corinto, onde as mensagens de Zeus chegavam aos interessados. Sem sabermos por que o senador Sarney preferiu nomear Dilma pitonisa, em vez de guerreira, como Joana dArc, ou mulher do Brasil Nação, como é conhecida Anita Garibaldi, importa, agora, analisar as retas e curvas no caminho da ministra. Vale lembrar que a pesquisa Datafolha da semana passada a colocou num espaço de 7% a 12%.
Voltemos à simbologia grega do senador Sarney. A região do templo de Delfos era dominada por uma monstruosa cobra Píton, que impedia alguém de passar. Mas Apolo, desafiando a serpente, derrotou-a em vigoroso combate, depositando seus ossos no solo abaixo do Oráculo. Ora, há uma Píton - que recebeu de Lula o nome de marolinha - a impedir que a ministra Dilma chegue ao templo de Delfos, ou melhor, ao Palácio do Planalto, um dos lugares cobiçados pelos também pré-candidatos tucanos José Serra e Aécio Neves, que calibram suas possibilidades pelo front das oposições. Digamos que Lula, no papel de Apolo - encenação que toparia fazer com gosto -, domine o bicho, mesmo que este seja tão impetuoso como a pororoca, o encontro das águas amazônicas da crise, e pose de deus vitorioso. Sob esses louros, a premonição lulista de que fará o sucessor poderá não dar com os burros nágua, como ocorreu com a promessa de eleger Marta Suplicy prefeita de São Paulo.
Há, porém, um cardeal de reza forte que pretende orar no templo do Planalto. José Serra carrega densidade conceitual maior que a da sacerdotisa Dilma, fruto de experiência política e administrativa longa e profícua, e perfil em elevação pelo desempenho à frente do Estado mais poderoso da Federação. É evidente que as ondas (da marolinha ou da pororoca?) puxarão seu corpo para cima ou para baixo das águas eleitorais. Se a crise acarretar estragos, a ponto de mexer com o bolso dos consumidores, o clima de desconforto social deverá ampliar o eco do discurso oposicionista. Quanto menos devastação a crise provocar, Apolo e sua pré-candidata terão melhores condições de ensaiar a ópera da grandeza brasileira, cantando a letra cívica de que não se mexe em time que está ganhando. Serra simbolizaria mudança nas regras do jogo e, com a trombeta do antilulismo/petismo, poderá canalizar energias e mobilizar platéias adormecidas. O desafio que tem é o de segurar o alto índice de 41% que a pesquisa hoje lhe confere.
Aécio Neves e Ciro Gomes são outros nomes aferidos pelo mesmo levantamento. Como bispos da missa presidencial - e não entra aqui juízo de valor, apenas um registro semântico/simbólico em comparação com os outros -, sua participação na cerimônia dependerá do processo de seleção dos candidatos da situação e da oposição. Aécio carrega a leveza da jovialidade, a fala da convergência, administrando com sucesso o segundo maior colégio eleitoral do País. É mais flexível na dança do que Serra, seu correligionário. Ciro figura na planilha alternativa de Lula, sendo mais uma interrogação do que afirmação. É, por enquanto, um bispo sem diocese.
Só as águias de Zeus poderão apontar com exatidão quem chegará ao Oráculo do Planalto.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político em São Paulo


