ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Walter Marcondes Filho 
Os jovens transgrediram, mas não são marginais. Foi um
erro mas não passível de
expulsão ou cassação
do diploma. Certamente
já estão arrependidos.
Se houver uma punição
rigorosa, que se penalize os verdadeiros culpados
Nas últimas semanas a imprensa crucificou os formandos de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que comemoraram com exageros injustificáveis o final do curso médico. Muitas pessoas detonaram o comportamento destes jovens como se fossem marginais e transgressores contumazes. A transgressão está em toda parte. A safadeza, trapaça, fraude, iniqüidade, crime, vileza, simulação, apropriação indébita, imoralidade, desonestidade, traição, suborno, corrupção e pecado (Albert K. Cohen 1968).
A faculdade de Medicina foi criada em 1967 e a minha turma é a segunda, que iniciou em 1968. Estive no HU desde 1971 até minha aposentadoria no final de 2006 e presenciei muitas coisas maravilhosas, porém também injustiças, perseguições e condutas inadequadas de quem deveria ensinar ou dirigir a instituição. Há muito tempo existe denúncia velada de que as coisas andam mal dentro do curso de Medicina. As críticas de que não há supervisão dos professores de forma adequada aos alunos é antiga, não só no Pronto-Socorro (PS), mas em todos os níveis. Não se pode aqui crucificar as famílias dos alunos como culpadas pela má educação e baderna, mas devemos refletir a postura do sistema pela omissão, negligência em relação aos fatos diários e a falta de imparcialidade na apuração. Os jovens são atirados às feras, muitos têm que aprender quase que sem orientação ou com residentes ainda malformados porque o docente não se apresenta para ensiná-los ou
supervisioná-los.
A denúncia é velada porque não há permissão para expor os erros que ocorrem dentro do HU. Nos últimos anos ocorreram fatos lamentáveis de discriminação, falta de respeito dos alunos, docentes e funcionários, boicote ao Enade e agora este episódio. Existem coisas que não são verbalizadas, não há permissão para tal, nem divulgadas para bem preservar a imagem da Medicina. Eu que vivi 35 anos na HU sei que as transgressões sempre existiram, erros foram cometidos, mas a corda sempre estoura no lado mais fraco.
Cansei de ver alunos maltratados por grosserias de docentes e funcionários. Há uma sobrecarga descomunal de trabalho em cima dos internos e residentes, porque o sistema assim deseja. Cansei de ver humilhações e alunos descompensarem psicologicamente por insensibilidade de quem deveria ensiná-los a serem mais humanos. Como exigir uma postura ética e humana de quem passa os dois últimos anos (internato) esmagado pelo sistema? A Medicina é maravilhosa e os médicos precisam através do exemplo aprender a técnica, a ética, o amor e o respeito pelo paciente e por toda a sociedade.
A sociedade é tendenciosa, pois julga sem ter conhecimento do que ocorre na caixa preta. Ouvir é preciso, pois o tempo de queimar bruxas já passou. Vamos escutá-los, talvez ele tenham algo a denunciar. Os alunos erraram? Sim, erraram, mas e aqueles professores faltosos, aqueles que apareceram nas câmeras do HU e aqueles que não aparecem no PS para dar supervisão aos alunos, que têm privilégios, recessos e que são improdutivos ao longo de toda carreira?
Existe muito privilégio para muitos e exigência exagerada para outros. Há uma estrutura viciada, patológica em cima dos alunos, que lhes trazem recalques, sofrimentos e descompensação psíquica. Cansei de ver alunos sofrerem por perseguição, por injustiças e reprovações injustificáveis. Existe um submundo de privilégios e um exagero de trabalho para outros. Os médicos plantonistas, embora cumpram funções docentes, são tratados com desdém pelos docentes e pela direção. Muitos merecem salários até melhores, mas muitos recebem sem merecê-los porque não cumprem o que a função determina. Os jovens são baderneiros? Não, eles transgrediram no último dia, mas não são marginais. Foi um erro, mas não passível de expulsão ou cassação do diploma. Certamente já estão arrependidos, uma advertência seria uma correção imposta. Se houver uma punição rigorosa então que se apure, corrija e penalize os verdadeiros culpados.
É melhor rever os conceitos de ensino no HU e rever o apoio que se dá ao aluno e residentes. Vamos respeitá-los como seres humanos que são. É preciso construir um modelo mais humano e também dar apoio aos alunos, que em sua maioria são ainda adolescentes ou jovens.
WALTER MARCONDES FILHO é pediatra e médico de adolescentes em Londrina


