ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de dezembro de 2008
Cezar Bueno 
A luta em defesa da educação
ecológica, que alerta a não
jogar papel na rua, separar
o lixo orgânico, plantar uma
árvore perto de casa, ajuda a
minimizar os graves danos
causados à natureza. Ao lado
disso, é urgente debater
a viabilidade de mudanças
políticas e culturais profundas
para conter o processo de
mutilação dos recursos naturais
Desde quando as pessoas tiveram que abandonar a condição de caçadores, pescadores e coletores de frutos para fixar-se ao solo, preparar a terra, plantar e colher, a relação entre o homem e a natureza teve de ser alterada. O aumento contínuo da população gera a necessidade de novas demandas por abrigos e alimentos. A capacidade de trabalho e a inteligência humana iriam, desde então, interferir, modificar e exigir novas maneiras de se relacionar com natureza.
A superação do modo de produção agrícola pelo modo de produção industrial fez emergir a sociedade de consumo. O crescimento da produção, a redução dos preços, o aumento do consumo e do lucro privado fizeram com que as noções de liberdade, de autonomia e de felicidade fossem mediadas por uma relação de mercado e servissem para definir o lugar e o status econômico, cultural e social de cada um nas sociedades contemporâneas.
O marketing e a multimídia foram chamados a criar novas necessidades e levar as pessoas a se entregarem voluntariamente à armadilha irracional do consumo. Uma multidão de sagazes consumidores tornou-se presa fácil de um modo de produção que fez da cultura do automóvel, dos computadores pessoais, dos telefones celulares e dos produtos geneticamente modificados a última palavra da moda, de status pessoal e de êxito profissional.
O mercado, adaptado para produzir tudo com prazo de validade e de morte, provoca ruptura contínua dos equilíbrios ecológicos globais. A diminuição dos recursos naturais, o empobrecimento da fauna e da flora, o extermínio de milhares de espécies ou até de ambientes naturais como rios e florestas contabilizam os efeitos destruidores do modelo de sociabilidade em curso. O absurdo da lógica produtivista choca-se com a escassez dos bens naturais. Aquilo que sempre existiu em abundância como a água, a terra, o ar, as matérias-primas, etc., está prestes a desaparecer. O desenvolvimento atual das forças produtivas converte-se em desenvolvimento das forças destrutivas da natureza e do homem.
As grandes cidades e as de médio porte, como Londrina, que duplicou sua frota de veículos automotores em menos de 10 anos, enfrentam graves problemas ambientais. A civilização do automóvel provoca a deterioração da qualidade do ar, o aumento da quantidade de pessoas com problemas alérgico-respiratórios, maior consumo de tempo e combustível na rotina dos engarrafamentos, a explosão do estresse e das formas anti-sociais de comportamento no trânsito.
Diversos movimentos ecológicos têm contribuído para a tomada de consciência sobre os perigos que ameaçam o planeta. O aumento devastador da poluição do ar, do solo, da água, da desertificação das terras férteis, da acumulação de dejetos nucleares incontroláveis e da destruição de espécies vivas chamam a atenção para magnitude da crise ecológica vigente. A ideologia produtivista do progresso e a cultura do consumo têm relação direta com gravidade dos fatos descritos.
A luta em defesa da educação ecológica, que alerta crianças e adultos a não jogar papel na rua, separar o lixo orgânico do reciclável, plantar uma árvore perto de casa, ajuda a minimizar os graves danos causados à natureza. Ao lado disso, é urgente debater a viabilidade de mudanças políticas e culturais profundas para conter o processo de mutilação dos recursos naturais. Seria o caso de indagar, por exemplo, se a classe média estaria disposta a abrir mão de possuir três carros na garagem; deixar de colecionar centenas de calças, vestidos, roupas íntimas; dezenas de pares de sapatos, sandálias e tênis; um sem-número de produtos de beleza, frascos de xampu e outros ícones do consumo, que fomentam apenas a alegria do consumo, o lucro do capital e a escassez dos recursos naturais? Por tudo isso, não basta dizer que cada um anda fazendo sua parte, quando opta por usar as sacolas ecológicas oferecidas pelos sedutores templos de consumo.
CEZAR BUENO é doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP e professor de Sociologia da Unifil da PUC-PR em Londrina


