Quem serão e como serão
os médicos que cuidarão
dos meus netos? Quando eu
adoecer, quem cuidará de mim?
E dos infantes gerados que
estão para nascer, filhos
de tantas Marias e de
tantos Josés? Certamente,
serão médicos, tanto quanto
nós, indignados e muito mais
envergonhados por terem
convivido com o bando que
protagonizou o triste fato




  Nesta segunda-feira, minha turma comemora mais um ano de conclusão do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Eramos 40 estudantes: 36 da capital paulista, dois londrinenses, um goiano e um mato-grossense. No dia 16 de dezembro de 1972, a FOLHA noticiou o evento mostrando diversas fotos da ‘‘primeira fornada’’. Repetiu a reportagem e a mesma foto antiga em 15/12/1987 (pág. 22) - quinze anos após nossa formatura.
  Desde que chegamos em Londrina, em 1967, fomos recebidos de forma hospitaleira e carinhosa por toda a população. Criamos vínculos e amizades fortes com muitas famílias que nos recebiam em suas casas. Muitos de nós estamos casados com filhas da terra.
  Londrina e a UEL tornaram-se nossas grandes paixões. Também fomos pioneiros e, como todos os jovens daquela década, festejávamos tudo. Eram os ‘‘tempos da flor, do sorriso e do amor’’. Da paz, não da guerra. Encontramos no-sso jeito de sermos diferentes e inauguramos novos tempos. Construímos a Faculdade de Medicina como cobaias vivas e, juntos, fundamos a UEL. Quanto orgulho e alegria por tudo o que fizemos e pela nossa contribuição a esta grandiosa cidade!
  Uma minoria fixou raízes profissionais na cidade e a maioria saiu em busca de outras terras ou retornando às cidades de origem. Hoje estamos espalhados e raramente nos encontramos.
  Porém, ao assistirmos na TV a notícia sobre a baderna no Pronto-Socorro do Hospital Universitário, certamente nos unimos por uma mistura dolorosa de sentimentos. Maléficos vírus nos invadiram, atacaram nossos sentimentos e feriram nossos corações, brutalmente. Vírus bem conhecidos nos dias atuais: da indignação, do ultraje e da revolta.
  Impotentes e feridos, diante de nossas TVs, assistimos ao filme de horror: ‘‘rapazes e moças de jalecos brancos’’ unidos em bando, arruaceiro, destrutivo e violento, entrando pelo corredor do Pronto-Socorro do HU. Invadiram e maltrataram, emocionalmente, pacientes, professores e demais pessoas que lá se encontravam. Bem ali, onde aprenderam sobre a ‘‘arte de curar’’ atendendo aos pacientes (livros vivos e abertos), desfavorecidos pelas doenças, pelos recursos financeiros e pela miséria social.
  Moro e trabalho em Ourinhos. No final de tarde, da janela do meu apartamento, olho para o Oeste, para a divisa do Paraná, onde fica Londrina. Uma imensidão de belas lembranças toma conta de mim: as festas e as roupas coloridas, os cabelos compridos até os ombros, os colegas de turma, os professores idolatrados, as ruas e suas casas de madeira, as grandes perobas sendo derrubadas para darem lugar ao campus, as primeiras aulas no Perobal, o antigo HU da Rua Pernambuco, as aulas na Santa Casa e no Sanatório dos Tuberculosos (atual HU).
  Diante dos fatos chocantes, livremente, opto por não julgar. Não quero propor medidas e nem encabeçar movimentos. Reservo-me, contudo, o direito de externar e compartilhar os meus sentimentos. Na cabeça deste médico de 64 anos, ainda atuante na profissão, vagueiam pensamentos desgarrados e algumas perguntas preocupantes enjauladas: quem serão e como serão os médicos que cuidarão dos meus netos que estão por vir? Quando eu adoecer, quem cuidará de mim? E dos infantes gerados que estão para nascer, filhos de tantas Marias e de tantos Josés? Quem cuidará? Certamente, serão médicos, tanto quanto nós, indignados e muito mais envergonhados por terem convivido com o bando que protagonizou o triste fato. Parabéns aos verdadeiros e éticos novos médicos da turma de 2008.

JOÃO GERALDO PINTO FERREIRA e médico psiquiatra Infanto-Juvenil e Psicanalista Junguiano em Ourinhos (SP)

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