Médico precisa ter caráter
Antonio Caetano de Paula
  A Associação Médica de Londrina (AML) vem a público parabenizar o Conselho Universitário como um todo e o reitor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Wilmar Marçal, em particular, pela decisão madura e responsável de reavaliar a certificação dos estudantes do curso de Medicina que promoveram os lamentáveis fatos no ambiente do Hospital Universitário de Londrina, e que já tinham mostrado seu caráter ao boicotarem o exame do Enade.
  A Universidade Estadual de Londrina, desde a sua fundação, tem formado profissionais com capacidade para serem inseridos no mercado de trabalho, e tem sido um dos pontos de referência para a cidade. Em decorrência deste fato, de sua função e de sua missão, não pode se omitir diante de fatos deploráveis como este praticado por um grupo de alunos que vem boicotando o curso de Medicina há mais de um ano.
  A responsabilidade, o sentido de humanidade, o respeito às leis e às pessoas devem ser características marcantes de qualquer profissional. Mas, quando se trata de um médico, o profissional que está em contato íntimo com as dores, com os anseios, com os receios, com os medos e com as fraquezas que todos nós sentimos quando a saúde está abalada, estas características necessitam ser mais marcantes. O médico necessita ser o amparo, ser a força do doente, e para isto necessita ter caráter.
  A UEL, no pensamento da diretoria da AML, não entrega diplomas apenas, e sim a permissão para exercer uma profissão. É responsável por aquele profissional que formou, portanto, é legítimo que avalie, além das qualificações de conhecimento e técnica, a personalidade, o caráter do aluno a ser profissionalizado.
  Quantos aos alunos envolvidos, estes terão oportunidade de ao se colocarem no lugar dos doentes, dos funcionários do HU, dos professores e dos demais colegas de turma, avaliarem sua relação com o mundo, sua presença entre os demais seres humanos e o seu merecimento de virem a ser chamados de médicos.
ANTONIO CAETANO DE PAULA é presidente da Associação Médica de Londrina


A sublime voz dos sinos
Walmor Macarini
  Nestes momentos de repicar dos sinos do Natal rememoro crônica que escrevi quando derrubaram a velha Catedral de Londrina e com ela o campanário. E demorou até que o recolocassem. Falo de sinos com carinho e nostalgia, porque fui batedor de sino na cidadezinha catarinense de Meleiro. Eu era também coroinha, e toda a parentada não perdia uma missa, um terço, uma novena, uma procissão, uma festa da igreja. E especialmente a Missa do Galo, celebrada exatamente à meia-noite, no Natal.
  Minha função era tocar o sino às 6 da manhã, incluindo os gelados dias de inverno, tocar ao meio-dia e às 6 da tarde. E quando morria gente. Sino tocando fora de hora, todos sabiam que coisa boa não era. Em poucos minutos todos estavam rodeados fora da igreja para esperar meu retorno da infausta missão e dar o nome de quem havia partido. Dona Teresa, boa e santa mulher, era a primeira a chegar. (Um dia o sino viria a soar para anunciar que também ela havia ido embora para a morada celestial).
  Enquanto um cortejo fúnebre seguia até o cemitério, o sino tinha de ser batido constantemente. O caminhar de um enterro é lento. Cada passo, um repique – eu fazia o cálculo de dentro da igreja, imaginando a distância até o cemitério. Mortes de crianças eram as mais dolorosas. O anúncio do sino era diferente. Eu subia até o topo da torre e o brandia com duas varetas metálicas. Era um toque cadenciado e triste. Mas eu também anunciava coisas alegres, como as batidas da missa das 10 horas dos domingos, que era a hora também de mostrar belos ternos e vestidos, até porque outras oportunidades eram raras. Juntavam-se aí religiosidade e elegância, e Deus não era contra.
  É preciso ter ritmo ao puxar a corda e ao soltá-la no embalo do sino voltando, porque ele pesa de 200 quilos para cima. Uma brecada imprudente pode arrebentar a corda ou destroncar o braço do sineiro. Na hora de parar há que medir a intensidade do vaivém e ir brecando, com o repique diminuindo de volume e o som ir desaparecendo suavemente.
  Sino é como gente. Gosta de carinho e toca conforme a afeição que o sineiro lhe dedica. Ele geme, chora, sorri. Pode-se brincar com o sino à vontade. O sineiro embaixo, ele lá em cima, um sem ver o outro mas ambos em harmonioso diálogo. É preciso respeitar um sino. Sua musicalidade harmoniza as vibrações, purifica a atmosfera circundante e une a Terra ao Céu.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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