É preciso que os gestores
e legisladores públicos se
aproximem das universidades
e dos institutos de pesquisa
para a tomada de decisões
a respeito de planejamento
e gestão territoriais. A
extrema distância resulta
em óbitos, degradação dos
recursos naturais, e uma
economia literalmente
ao sabor das tempestades



  Inundações, enxurradas, deslizamentos, tempestades, destruição de residências e mortes têm ocupado as manchetes dos veículos de comunicação com maior freqüência nas últimas quatro décadas nesta mesma época. Durante os meses de outubro a março, os episódios pluviométricos extremos atingem o litoral Sul-Sudeste, desde o Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Neste ano não foi diferente - mais uma tragédia anunciada.
  Estes desastres naturais, somados às interferências antrópicas, têm exposto a fragilidade da infra-estrutura nos domínios territoriais destes eventos, cíclicos, em seus mais diferentes tipos e dimensões. Amplia desta forma, o número de vítimas fatais e o impacto econômico negativo. Cabe aos gestores e legisladores públicos parcela majoritária de responsabilidade e comprometimento.
  A atipicidade pluviométrica no mês de novembro em Blumenau foi causada pelo acumulado de 982 milímetros, quando a média histórica para aquele mês é de 113 milímetros, não justifica a dimensão da tragédia sócio-ambiental. Os deslizamentos de fragmentos florestais não ocorreram devido às chuvas intensas e sim pela ocupação e uso inadequados do solo, das vertentes íngremes, ao longo da bacia hidrográfica do Itajaí-Açu, como em todas as bacias hidrográficas do Atlântico Sudeste.
  As vazões ou escoamento das águas no leito dos rios integram o sistema de drenagem das bacias, exprimem as variações de precipitação, são policíclicas e sensíveis às interferências antrópicas. Quando o pulso de cheia do Rio Itajaí-Açu atingiu o seu máximo em novembro último, com 11,29 metros, sua vazão foi equivalente a 3.768 m3. s-1. Em 1880, a lâmina d’água chegou a 17,10 m, com a vazão estimada em 7.893 m3. s-1, duas vezes maior do que a do último mês. As cheias na bacia hidrográfica do Itajaí-Açu são naturais e cíclicas. O que não se pode permitir é a ocupação das suas várzeas, e o uso do solo de forma insustentável neste frágil ecossistema, a Mata Atlântica.
  Além destas características hidroclimáticas, os eventos extremos na região Sul também sofrem com o fenômeno Enos - El Niño Oscilação Sul e La Niña. Estudo recente realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) através do Programa Geodesastre-Sul projeta como cenário no final do presente século, para as regiões Sul e Sudeste, o aumento considerável dos índices de precipitação, de 20% acima das médias históricas.
  Os prejuízos deste ano certamente serão somados aos mais de dez bilhões de dólares contabilizados pelos 150 desastres naturais registrados no Brasil, a partir de 1900. Destes, de acordo com o Geodesastre-Sul/Inpe, 59% correspondem às inundações, seguidos pelos deslizamentos de barreiras com 14%, restando os demais eventos sempre relacionados às atipicidades hidrometeorológicas. Lamentavelmente, o número de vítimas fatais neste mesmo período passa de 8.200.
  É preciso e urgente que os gestores e legisladores públicos se aproximem mais das universidades e dos institutos de pesquisas que têm acumulado conhecimentos técnicos-científico, cultural, específicos, sobre o tema nestes últimos 50 anos. A extrema distância entre estes gestores e legisladores resulta nas graves conseqüências da falta de informações corretas para a tomada de decisões a respeito de planejamento e gestão territoriais, traduzidos em óbitos, degradação sistemática dos recursos naturais, da infra-estrutura incipiente, e uma economia literalmente ao sabor das tempestades.
  É o momento adequado para as discussões sobre a organização territorial nestas regiões, bem como da sua gestão, redimensionamento de sua infra-estrutura, considerando o espaço geográfico como detentor de alta sensibilidade socioambiental, para que o uso dos recursos ambientais seja coerente com o desenvolvimento durável. O Mercosul, igualmente sujeito aos episódios atípicos, também deve ser incluído neste debate.

VALMIR DE FRANÇA é professor e doutor em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais na Universidade Estadual de Londrina

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