ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de dezembro de 2008
Nelio Roberto dos Reis 
O Vale do Itajaí está
pagando o preço do
desmatamento indiscriminado
sem planejamento. Outras
enchentes virão e não
será culpa da natureza.
Se não repensarmos nossas
atitudes com o ambiente,
destruiremos o mundo
e a nós mesmos. A
quem interessa isso?
O homem é o único ser que pode fugir das restrições impostas pela natureza. Sua capacidade de improvisar é ilimitada e ele a utiliza para modificar o ambiente. Os animais não improvisam e se não obedecerem às regras básicas perecem. O homem nega o princípio de canalização da energia. Na natureza a canalização da energia pelos caminhos não destrutivos é obrigatória para a estabilidade do meio.
O risco completo de desequilíbrio dos ecossistemas terrestres existe em consequência da independência ecológica ou energética do ser humano.
O homem provoca amplas modificações de seu ambiente desde que começou a utilizar o fogo. A queima das matas para o plantio nunca deixará o homem sem oxigênio porque mais de 90% dele vem das algas do mar, portanto, a Amazônia não é o pulmão do mundo. Mas as devastações de florestas para a obtenção de combustíveis deram origem aos primeiros desertos e problemas de erosão.
A substituição dos processos naturais por métodos artificiais originou conflitos entre o ser humano e o ambiente que ele próprio criou. Por exemplo: a cobertura vegetal que o homem retira diariamente constitui o mais importante fator de proteção do solo contra a erosão. A vegetação protege o solo por que reduz ou amortece o impacto das gotas de chuva contra o solo. Ela constitui barreira física ao transporte de plantas rasteiras reduzindo a velocidade da água pela metade. As raízes dos vegetais constituem uma infinidade de filamentos que provocam aderência aos grãos do solo e ainda os vegetais elevam a porosidade do ambiente que fica mais capaz de absorver água.
Além de tudo isso, a capacidade de transpiração dos vegetais é muito grande porque a superfície das folhas é maior que a do solo. Quando tiramos os vegetais perdemos tudo isso no mesmo momento e as catástrofes acontecem. Portanto, não existe a natureza revoltada contra o homem. Ela está simplesmente reagindo naturalmente dentro das condições que nós a deixamos.
Para se ter uma idéia da demanda de vegetal no mundo, basta mencionar o dado significante que uma edição domingueira do jornal ''New York Times'' consome toda a madeira que cresce em um ano em 77 hectares de florestas. Dos 365 milhões de florestas que existiam nos Estados Unidos, apenas 18 milhões foram conservados. Na África, dois terços das florestas tropicais já haviam sido dizimados em 1048. Na Nigéria, 250 mil hectares de florestas são transformados por ano em terra de cultivo, os quais são rapidamente devastados pela erosão.
A Amazônia dispensa comentários. O Vale do Itajaí está pagando o preço do desmatamento indiscriminado sem planejamento. Outras enchentes virão e não será culpa da natureza.
Se não repensarmos nossas atitudes com o ambiente, destruiremos o mundo e, consequentemente, a nós mesmos. A quem interessa isso?
Em Santa Catarina, poderíamos ainda reflorestar, mas na cidade de São Paulo, que também vive intensas enchentes, asfaltamos e concretamos todo o solo. Para onde a água poderia escoar? Como poderemos reverter? Em São Paulo já não conseguimos mais enxergar a linha do horizonte. E quando não enxergamos a linha do horizonte, não tomamos conta da nossa pequenez e continuamos na nossa arrogância praticando a nossa autodestruição. Até quando?
Por mais incrível que possa parecer seria mais barato e prudente destruir e construir uma nova São Paulo do que arrumá-la.
NELIO ROBERTO DOS REIS é professor universitário em Londrina


