A introdução da música no processo psicoterapêutico representa a abertura de um campo clínico diferenciado, articulando diretamente saúde à produção de subjetividade. Como parte significativa das ações na humanização da assistência hospitalar a proposta articula a Clínica do Acompanhamento Terapêutico (AT) e a Ética da Psicanálise na abordagem das urgências subjetivas e dos processos de criação.
Frequentemente, tanto a doença como a internação são vividas como uma situação de ruptura marcada por intensa angústia, medo e incertezas, que variam com o grau de complexidade do suporte hospitalar exigido e os antecedentes médicos, sociais e psicológicos de cada estrutura familiar.
Paciente e familiares sofrem no momento inicial da hospitalização uma destituição subjetiva aguda, ou seja, a admissão lhes destitui da posição de sujeito e os impõe o lugar de objeto como condição de tratamento. Neste contexto, a Clínica do Acompanhamento Terapêutico atua em duas frentes: 1- Recepciona, acolhe e avalia, possibilitando um lugar de fala e escuta das questões subjetivas emergentes, reinstituindo ao paciente e a família o lugar de sujeito. 2- Os conduz a uma apropriação do espaço e da dinâmica hospitalar, proporcionando conexões com os serviços, diminuindo a insegurança e o pânico diante da internação.
No momento seguinte ao acolhimento e avaliação é que são diagnosticados os casos que se beneficiarão da aplicação clínica da música. Os objetivos são determinados de acordo com as características clínicas de cada caso. A avaliação psicológica e do histórico musical irão indicar se no caso em específico será benéfica a aplicação da música ou não, pois, em alguns casos a aplicação pode ser aversiva, inconveniente e até mesmo contra-indicada.
A orientação ética e metodológica é engajar os sujeitos numa produção estética criativa capaz de lhes devolver a saúde psíquica necessária a sustentar e atravessar o tratamento. O eixo do trabalho é humanizar, propiciar a emergência do sujeito, o lampejo criativo das metáforas que dão sentido para uma trajetória particular, cumprindo as funções de conter e transformar crises em vínculos de confiança e trabalho coletivo.
De modo geral, a música é utilizada como recurso coadjuvante na redução da ansiedade, do estresse e da fadiga decorrentes da internação, bem como, no controle da dor, na reabilitação neuropsicológica, etc. Pesquisas têm reafirmado o potencial terapêutico da música em vários domínios. Neste mês, a American Heart Association divulgou um estudo realizado pela University of Maryland (Baltimore) que relaciona música a saúde do coração. Pesquisadores observaram que a música pode promover a dilatação dos vasos sanguíneos favorecendo o fluxo vascular. Segundo a pesquisa, a música age positivamente no endotélio, tecido que reveste os vasos e que regula o tônus das paredes, o fluxo sanguíneo, ajusta a coagulação, a resposta a infecções, desempenhando um papel importante na prevenção de doenças cardiovasculares.
O que explica os excelentes efeitos psicológicos proporcionados pela audição ou produção musical própria é que a música tem a capacidade de atuar no psiquismo criando um foco de alívio em meio à desorganização da angústia e da dor. A música direciona, organiza e remete ao sujeito, suas aspirações e desejos. Aí está o terapêutico da música, ela guia o ouvinte a se reconciliar consigo mesmo. Mantendo o tônus emocional, age sobre o corpo, criando condições favoráveis ao tratamento, otimizando a alta hospitalar.
CLOVIS EDUARDO ZANETTI é psicólogo e coordenador do Serviço de Psicologia e Psicanálise do Hospital do Coração de Londrina

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