ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Cezar Bueno 
Os arquitetos do
neoliberalismo financeiro
fizeram os EUA arder
em chamas e encurtaram
o caminho para a vitória
eleitoral de Barack Obama,
um negro que possui a
difícil tarefa de
turbinar o capitalismo
A queda do Muro de Berlin (1989) e o fim do chamado socialismo real parecia abrir, aos privatistas e ideólogos do neoliberalismo, uma longa fase de prosperidade econômica às nações. Organismos internacionais arrogantes, como o FMI e o Banco Mundial, sempre insistiram em dar lições a países pobres, como o Brasil, com a pretensão de ensinar-lhes a deixar a triste sina de países subdesenvolvidos e a entrar no seleto grupo de países ricos, civilizados, responsáveis e politicamente transparentes.
Nos últimos 20 anos, a cartilha neoliberal promoveu, em diversos países, a necessidade de privatização do patrimônio público, da abertura indiscriminada do mercado e de um ataque insidioso às políticas sociais promovidas pelo Estado. O lado social do Estado foi substituído pela multiplicação das Organizações Não Governamentais (ONGs), com o objetivo de gerir o destino dos excluídos do mercado formal de trabalho que já não podem contar com a ajuda e proteção do Estado.
A ideologia do livre mercado, impulsionada pela revolução informacional, penetrou os poros das instituições públicas e fez acreditar que toda e qualquer forma de intervenção social do Estado deveria ser combatida como inimiga da liberdade, da prosperidade individual e do bem-estar coletivo. Muitos sociólogos, economistas, chefes políticos e burocratas oficiais venderam a idéia da superioridade da lei de ferro do mercado e repudiaram qualquer tentativa política, favorável à intervenção dos gastos sociais do Estado.
Na prática, esse modelo de pensamento e de ação política passou a conviver, em diversos lugares, com o aumento da produção da riqueza e com a concentração social da renda. Durante os anos 90, países como Brasil, México e Argentina levaram a cabo um processo indiscriminado de privatização do Estado e, logo em seguida, foram duramente atacados pelos piratas internacionais do capital financeiro que, em nome do lucro fácil e rápido, foram às bolsas apostar contra a soberania política desses países, de seus governos, de suas moedas e de seus povos. Os efeitos dessa onda econômica e financeira neoliberal tornaram esses governos extremamente impopulares.
Durante os anos de 2000 e seguintes, a ascensão política de governos democráticos e resistentes à onda neoliberal, exigiu que os novos presidentes eleitos recuperassem a capacidade de intervenção política do Estado como fator de desenvolvimento econômico e promotor da justiça social.
Nos EUA, uma seqüência de presidentes eleitos há mais de 20 anos, sucumbiu-se diante das pressões do capital financeiro exigindo o desmonte da rede de proteção pública daquele país. Desde então, governos republicanos e democratas têm sido hábeis em convencer a opinião pública, alegando a falta de recursos públicos para manter ou ampliar a gama de direitos sociais e previdenciários que beneficiam os trabalhadores norte-americanos. Nesse período, o Estado penal substituiu o Estado social. A criminalizacão da miséria multiplicou o número de prisões para conter jovens e adultos em idade de trabalhar.
Políticas neoliberais que, há pouco, justificaram a abertura radical do mercado e a privatização de serviços sociais vitais como saúde, previdência social e infra-estrutura urbana, poderão obrigar muitos países a socializarem enormes perdas financeiras. Por hora, a selvageria do mercado financeiro exigiu do governo norte-americano o desembolso de 850 bilhões de dólares para salvar, da falência, meia dúzia de grandes bancos privados. Essa quantia é superior ao Produto Interno Bruto brasileiro. A estatização dos prejuízos, provocados pelo mundo das finanças, alerta para a profundidade da crise que se iniciou no centro do capitalismo globalizado. Os arquitetos do neoliberalismo financeiro fizeram os EUA arder em chamas e encurtaram o caminho para a vitória eleitoral de Barack Obama, um negro que possui a difícil tarefa de turbinar o capitalismo.
CEZAR BUENO é doutor em Ciências Sociais e professor de Sociologia da Unifil e da PUC-PR em Londrina


