Jesus é rei das nações.
As bem-aventuranças são a
Carta Magna do reinado
universal. Mesmo, sem
saber, a consciência
humana, as religiões, a
lei natural apontam para
o Cristo. Ele é o início
e o fim, alfa e ômega, o
sentido e a chave da história




Dom Orlando Brandes
  Celebramos neste domingo a festa de Cristo Rei porque estamos concluindo o ano litúrgico. No próximo domingo já estaremos no Advento, preparando-nos para o Natal. Como é o rei Jesus?
  Ele esvaziou-se de si mesmo, deixou a glória dos céus, encarnou-se no seio de Maria, nasceu na estrebaria de Belém. Fundou a ‘‘Igreja do avental’’, isto é, da prática do lava-pés e na cruz estabeleceu seu trono.
  Jesus mesmo e seu evangelho são o reino de Deus na terra. Reino que não tem fim porque se fundamenta no direito, na justiça, na verdade, na alegria, no amor e na paz. Em Jesus todas as coisas foram criadas. É o primogênito de toda criatura. Ele é o rei do cosmos e todas as coisas criadas participarão da gloriosa libertação do novo céu e nova terra, no reino definitivo. Eis o reinado cósmico de Jesus.
  Proclamar Jesus Cristo como rei, só é possível com a luz e força do Espírito Santo (ICor 12,3), porque é uma proclamação radical, uma opção de vida e uma rendição incondicional. Deixar Jesus Cristo cristificar todas as áreas de nossa personalidade, é uma dimensão do seu reinado. Ter o jeito de Jesus, as suas atitudes, os seus critérios e valores, os seus sentimentos, permitir seu reinado nas pessoas e nos corações. Ele é o Senhor de nossas existências.
  Jesus é rei das nações. As bem-aventuranças são a Carta Magna do reinado universal. Mesmo, sem saber, a consciência humana, as religiões, a lei natural apontam para o Cristo. Ele é o início e o fim, alfa e ômega, o sentido e a chave da história.
  Confessar que Jesus Cristo é rei das nações, equivale a fazê-lo conhecido, seguido e amado em todo o mundo e ‘‘nada antepor a Cristo Jesus’’ (São Bento). Jesus é o bem supremo e a maior fascinação da humanidade. O reino não é uma doutrina, uma teoria, é uma pessoa, é Jesus de Nazaré. Confessem as línguas e dobrem-se os joelhos nos céus e na terra, proclamando o senhorio de Jesus. Não temos outro tesouro, outra felicidade outra prioridade. Daí a necessidade da missão evangelizadora até os confins da terra, para que Jesus Cristo seja o rei do mundo.
  Anunciar Cristo Rei não é tarefa fácil em nossa sociedade onde existe a soberba da razão, o vazio do coração, a atrofia espiritual, o culto do indivíduo. Cristo Rei nos governa com a onipotência do amor, a força da misericórdia, a bondade do coração. No seu reino, os primeiros são os pecadores, os doentes, os pobres. O reino de Jesus é o reino da liberdade, ou seja, livres do mal e até do ‘‘império do mal’’, os cidadãos deste reino são discípulos do evangelho da vida.
  Precisamos sempre recomeçar a partir de Cristo Jesus, estabelecer com Ele uma profunda amizade, porque Nele, por Ele, com Ele, a vida humana se torna nova, bela, livre e grande. O reino de Deus é o reino da vida plena iniciada na terra e que será consumada no céu. ‘‘A gloria de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a visão de Deus’’, diz Santo Irineu.
  No reino de Deus, o primeiro mandamento tem primazia. Construir a sociedade sem Deus, é construí-la contra o homem e sobre a areia. Precisamos de estruturas justas para viabilizar a construção do reino onde o outro é centro. No reino de Deus, o outro é meu irmão. É o reino da dignidade humana. Quem se faz o menor, o servo e o último, é o maior no reino.
  A Igreja é serva do reino e por isso será Igreja samaritana, casa dos pobres, advogada da justiça para enfrentar a crise econômica, a crise social, a crise ecológica, a crise ética e a crise religiosa. Estas crises não foram causadas pelos pobres. Um desenvolvimento global e integral é o caminho para um mundo diferente.
  Transformemos os desertos em jardins. A festa de Cristo Rei indica que a história humana tem uma meta, um rumo, um porto. Participamos de um desígnio eterno e amoroso de Deus. A ação e a decisão humanas têm um peso no tempo e na eternidade. Nós fazemos o tempo que se eterniza no amor com que fazemos todas as coisas. A cidade humana é feita de dois amores, diz Santo Agostinho: ‘‘O amor de si até ao abandono de Deus ou o amor de Deus, até ao abandono de si’’. Olhos no céu e mãos firmes no leme da história, eis a nossa tarefa de construtores do Reino.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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