Ter consciência negra,
significa que ser negro
não é defeito, que o
negro não é pior e nem
melhor que outra etnia,
e sim igual. Devemos
continuar lutando pelas
ações afirmativas e
pela igualdade racial




  O Dia da Consciência Negra - 20 de novembro, data que coincide com o dia da morte do Zumbi dos Palmares, em 1695 - é um dia dedicado à reflexão sobre a inclusão do negro na sociedade brasileira. Em 1534 o primeiro transporte de africanos chegou no Brasil e este dia busca ser uma data para lembrar a resistência do negro à escravidão.
  Segundo o IBGE, no Brasil os negros são correspondentes a menos de 10% da população. Porém, ‘‘como o critério é a autodeclaração’’, estima-se que a população negra seja bem maior. Entre aqueles que têm até 24 anos, 57,2% dos brancos haviam atingido o ensino superior, contra apenas 18,4% dos negros. Mesmo com a taxa de analfabetismo mais baixa do que em 1991, em 1999 o analfabetismo continuou maior entre pretos e pardos (20%) do que entre brancos (8,3%). Quando comparamos por raça os anos de estudo, podemos ver que pretos e pardos continuam em desvantagem em relação aos brancos. Em média, os pretos têm 4,5 anos de estudo, enquanto os pardos têm 4,6 e os brancos 6,7 (IBGE teen).
  Com a lei 10.639 de janeiro de 2003, é incluído o dia 20 de novembro no calendário escolar: Dia Nacional da Consciência Negra. Nesta data, organizam-se palestras, eventos educativos com o intuito de evitar o preconceito, ou seja, inferiorização perante à sociedade. Vários temas são debatidos e ganham relevância, principalmente no que se refere à inclusão do negro na sociedade.
  É uma data não para ser comemorada e sim repensada, pois estamos em véspera de comemorarmos 121 anos da Abolição da Escravatura e ainda convivemos com muitos afro-descendentes excluídos da sociedade. Alguns lutando bravamente para conquistar o primeiro emprego, a vaga na faculdade e sonhando com a promoção no trabalho. Por vezes, ainda têm que discutir a importância das cotas.
  O escritor e africanista Alberto da Costa e Silva, numa entrevista ‘‘África para Crianças’’ (Revista Brasil Raça, pág. 18, NOV, 2006), revela ser favorável a este tipo de ação afirmando que: ‘‘Ainda cônscio dos perigos que apresenta’’. Ele entende que ‘‘mais vale correr esses riscos do que deixar que continue sem mudança uma situação que compromete o nosso futuro’’. De fato, no campo da educação precisamos mesmo modificar ‘‘a estática porcentagem de 2% de negros’’ que têm acesso à universidade, e objetivarmos um horizonte melhor.
  O racismo como teoria de superioridade, da ‘‘raça branca’’ sobre ‘‘os outros’’, foi criado para justificar a escravidão negra. Afinal, é mais provável que os negros sem consciência sintam-se culpados pelo que são do que enxergar o erro na perseguição que vem da sociedade. A tendência é assumir a inferioridade que lhes atribuem e justificar a discriminação.
  É hora de apostar no bem. Pois ter consciência negra, significa que ser negro não é defeito, que o negro não é pior e nem melhor que outra etnia, e sim igual. ‘‘Ter consciência negra, significa compreender que não se trata de passar de explorados a exploradores e sim lutar, junto com os demais oprimidos para fundar uma sociedade onde todos tenhamos na prática, iguais direitos e deveres’’ (Bentes, Xam Axé, OUT, 2006). Diz o autor: ‘‘É lutar contra as discriminações raciais, sociais e sexuais, onde quer que se manifestem’’. Significa que devemos continuar lutando pelas ações afirmativas e igualdade racial.
  Neste sentido, os movimentos sociais negros atuam de forma indelével nestes processos, ao auxiliar na superação (e nova emancipação) com relação às novas espécies de dominação ideológica do capitalismo que possuem o auspício das elites e autoridades brasileiras. Seriam importantes, entre estes movimentos, segundo Costa (2007), a implementação de ações afirmativas, do multiculturalismo, o combate ao preconceito e discriminações, a proposição das africanidades brasileiras e a necessidade de se enaltecer a cultura negra como um dos pilares formadores da sociedade brasileira.

MARIA SALETE CORRÊA CARVALHO
é professora pesquisadora e mestre em Psicopedagogia em Londrina

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