A vitória de Obama
representou o coroamento
de um jovem líder negro
ao poder nacional, num país
marcado pela intolerância
racial. Significa ainda que
o mercado deve servir
ao interesse público
e não o contrário



  Thomas Friedman, jornalista do New York Times, escreveu que a vitória de Barack Hussein Obama para presidente dos Estados Unidos significou o fim de uma guerra civil que sob muitos aspectos foi decidida na batalha de Gettysburg, na Pensilvânia, há 145 anos. Uma vez tendo conquistado a batalha eleitoral da Pensilvânia, sua vitória como o 44º presidente dos Estados Unidos estava garantida.
  Têm todo sentido as afirmações de Friedman e elas parecem mais um desabafo e, é preciso frisar, a vitória do senador Obama tem dois pontos. Primeiro, simbolicamente representou o coroamento de um jovem líder negro ao poder nacional, num país marcado pela intolerância racial. Segundo, em termos ideológicos, significa uma bofetada no neoliberalismo, indicando que o mercado deve servir ao interesse público e não o contrário. Por outro lado, essa vitória tem um aspecto político porque mostra que mudanças dependem da superação da letargia e da indiferença do eleitorado, mas também da possibilidade desses mesmos eleitores terem lideranças que os façam acreditar em transformações.
  Vimos que essa indiferença do cidadão americano foi superada, tendo em vista, o alcance de um recorde histórico de comparecimento às urnas. É sabido que nos Estados Unidos o voto é facultativo, mas a surpresa positiva foi a presença de mais de 118 milhões de votantes, num universo de 153 milhões de pessoas aptas a votar.
  Após a consagrada vitória, Barack Obama, expôs o seguinte em seu discurso: ‘‘Essa eleição teve muitos ‘primeiros’ e muitas histórias que serão contadas por gerações. Mas há uma que está em minha mente nesta noite, sobre uma mulher que votou em Atlanta. Ela seria como muitos dos outros milhões que ficaram em fila para ter a voz ouvida nessa eleição, não fosse por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos. Ela nasceu apenas uma geração após a escravidão; uma época na qual não havia carros nas vias nem aviões nos céus; quando uma pessoa como ela não podia votar por dois motivos - porque era mulher ou por causa da cor da sua pele. Nesta noite, penso em tudo que ela viu neste seu século na América - as dores e as esperanças, o esforço e o progresso, a época em que diziam que não podíamos, e as pessoas que continuaram com o credo: Sim, nós podemos. Em um tempo no qual vozes de mulheres eram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela viveu para vê-las se levantar e ir às urnas. Sim, nós podemos’’.
  E continuando, o presidente eleito disse: ‘‘Quando havia desespero nas tigelas empoeiradas e a depressão em toda parte, ela viu uma nação conquistar seu New Deal, novos empregos, um novo senso de comunidade. Sim, nós podemos. Quando bombas caíam em nossos portos e a tirania ameaçava o mundo, ela estava lá para testemunhar uma geração chegar à grandeza, e a democracia foi salva. Sim, nós podemos. Ela estava lá para ver os ônibus em Montgomery, as mangueiras em Birmingham, a ponte em Selma e um pregador de Atlanta que disse: ‘Nós devemos superar’. Sim, nós podemos. Um homem chegou à Lua, um muro caiu em Berlim, um mundo foi conectado por nossa ciência e imaginação. Neste ano, nesta eleição, ela tocou o dedo em uma tela e registrou o seu voto porque, após 106 anos na América, através dos melhores e dos mais escuros dos tempos, ela sabe que a América pode mudar. Sim, nós podemos. América, nós chegamos tão longe. Nós vimos tanto. Mas há tantas coisas mais para serem feitas. Então, nesta noite, devemos nos perguntar: se nossas crianças viverem até o próximo século, se minhas filhas tiverem sorte suficiente para viver tanto quanto Ann Nixon Cooper, quais mudanças elas irão ver? Quanto progresso teremos feito? É nossa chance de responder a esse chamado. É o nosso momento’’.
  Não tem como não concordar com Thomas Friedman ao citar o ex-presidente Lincoln: ‘‘Em seu famoso discurso de Gettysburg, que exortou cada americano a tomar para si, o trabalho inconcluso que aqueles que aqui lutaram conseguiram fazer avançar em bons termos. Aquele trabalho permaneceu incompleto, entretanto, por um século e meio. Apesar de décadas de aprovação de legislação de Direitos Civis, intervenções judiciais e ativismo social - e apesar do sonho de Martin Luther King e da Lei de Direitos Civis de 1964 - o fim da guerra nunca pôde ser declarado até que a maioria da América branca de fato elegesse um presidente afro-americano’’.

FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é doutora em Ciências Sociais, docente da Faculdade Uninorte e presidente do Obsocil (www.otodo.com.br)

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