ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de novembro de 2008
Paulo Muniz 
O importante é evitar as
dívidas de longo prazo.
Mantermos nossos orçamentos
equilibrados, porque só
assim vamos passar por
mais esta crise econômica
mundial provocada pela
ganância dos banqueiros
As ações que os EUA estão tomando para conter o estouro da bolha imobiliária colocam em xeque a tese do neoliberalismo que, no mundo todo, teve como fortes defensores o ex-presidente norte-americano Ronald Reagan e a primeira-ministra inglesa Margareth Tatcher. No Brasil, o maior incentivador foi o ex-presidente Collor de Melo. Os 700 bilhões de dólares que serão retirados dos contribuintes para socorrer os bancos mostram que o governo dos EUA não está tão distante assim do controle da economia que, no neoliberalismo, deveria ser regulada pelo livre mercado. Por que essa mesma pressa para socorrer os bancos, que emprestaram o que não tinham, não é tomada para socorrer o seu Manoel da padaria ou a dona Maria da quitanda? O neoliberalismo, na verdade, só existe no mercadinho da esquina, mas quando são os grandes bancos que correm riscos os recursos do contribuinte - em português mais claro: o nosso dinheiro - acabam migrando rapidamente para as mãos dos banqueiros. Ninguém, em sã consciência, é totalmente contra ao socorro do mercado financeiro, afinal ele afeta a vida de todos. Mas o problema é que existem dois pesos e duas medidas. Enquanto os bancos - e principalmente seus diretores - estavam ganhando montanhas de dinheiro à custa de empréstimos sem lastro, eram só sorrisos e festas suntuosas dominando Wall Street.
Os EUA, todos sabem, são hoje um país muito endividado, além do limite suportável. No final do ano passado, a dívida das famílias americanas atingiu a cifra recorde de US$ 11,5 trilhões e a das empresas superou US$ 8,4 trilhões. Agora, deve aumentar ainda mais, levando junto as economias do mundo todo. O maior problema é que as grandes economias mundiais têm como socorrer o mercado, pois são as donas do dinheiro. E países em desenvolvimento, como Brasil, acabam pagando a conta com crises na bolsa de valores, alta do dólar, retorno da inflação, estagnação e grave recessão.
A renomada intelectual Maria da Conceição Tavares, que escreveu vários livros e artigos sobre a inabalável hegemonia dos EUA, acaba de fazer uma autocrítica honesta e corajosa da sua visão anterior. Não escreveria hoje, como escrevi em 1984, sobre a retomada da hegemonia americana, disse numa entrevista à Reuters. Sempre incisiva, ela antevê que o século XXI não será mais norte-americano e decreta a falência das idéias neoliberais. O deus-mercado virou diabo na terra do gelo, afirma a polêmica economista. Para ela, não há mais dúvida de que os EUA entrarão em recessão. A ligação entre essa crise e o setor real agora é o aperto do crédito. Se continuar, vamos para uma recessão global. Sem crédito, o capitalismo não funciona. A tendência, afirma, seria a da desordem mundial.
Ninguém está aqui para pregar o catastrofismo, afinal, por enquanto, nós brasileiros, ainda não estamos sentindo muito a crise, mas a longo prazo vamos sofrer com as dificuldades para se obter crédito. Grandes empresas que dependem de financiamento externo passam a encontrar menos linhas de crédito disponíveis, afinal, os bancos têm medo de emprestar em um contexto de crise. Por conseqüência, com a dificuldade em captar no exterior, ficam comprometidos projetos de construção dessas empresas, que por sua vez gerariam empregos e renda ao país. Até mesmo os bancos começam a sofrer com a dificuldade de captar recursos no exterior, o que deve fazer os empréstimos ficarem mais caros e mais difíceis também para as pessoas físicas.
Por conta disso, as instituições de médio e pequeno porte já tiveram ajuda do governo brasileiro. Mas será que é suficiente? O importante é continuar trabalhando e, por enquanto, evitar as dívidas de longo prazo. Nós, consumidores brasileiros, precisamos agir com cautela e, sempre que possível, mantermos os nossos orçamentos equilibrados, porque só assim vamos conseguir passar por mais esta crise econômica mundial provocada pela ganância dos grandes banqueiros.
PAULO MUNIZ é empresário em Londrina


