ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de novembro de 2008
Eliana Merlin Deganutti de Barros 
A língua sempre
foi dinâmica e fortemente
influenciada pelo uso.
É dever da escola
estabelecer o diálogo entre
a língua que se aprende na
escola e a língua em uso,
seja ela dos literatos
ou da cultura midiática
O diálogo entre a cultura midiática e a escola, mesmo com suas assimetrias, vem sendo motivado por dois grandes objetivos: um, vinculado ao princípio da abertura do discurso pedagógico para os discursos das comunicações; outro, de inserção crítica da voz da diferença representada pela imposição sistematizadora e de produção dos saberes que devem motivar e estimular o mundo da escola. Veja que para que essa articulação concretize-se na sala de aula não é preciso que tenhamos um professor especialista nas técnicas da TV, do cinema, da imprensa, mas, sim, um educomunicador - um professor conectado com o mundo contemporâneo, capaz de estabelecer diálogos entre os conhecimentos manipulados pela escola e as informações disponibilizadas pelos meios de comunicação.
Entretanto, sabemos que há uma resistência muito grande quanto a essa inserção da cultura das mídias na escola. No âmbito do ensino da Língua Portuguesa isso se torna até mais evidente. É comum nos depararmos com discursos conservadores, retrógrados que vêem a língua como instância imaculada que deve ser protegida das más influências da língua mundana - linguagem outras que não sejam as consagradas pelos grandes literatos. Na edição de 12 de setembro de 2007, por exemplo, a revista Veja traz como manchete de capa: ''Falar e escrever certo''. Nessa edição há uma vasta reportagem sobre a língua portuguesa, em decorrência da aprovação do acordo ortográfico entre os países que falam o português. Vários linguistas, gramáticos e literatos foram entrevistados, deixando suas impressões sobre a reforma ortográfica, mas também revelando, em parte, o conceito de língua de cada um.
Mas, para o momento, o que nos interessa desse episódio é um artigo escrito pelo jornalista Reinaldo Azevedo, intitulado ''Restaurar é preciso: reformar não é preciso''. O texto é uma amostra do conservadorismo ao extremo e o culto à língua-mãe. O jornalista é radicalmente contra os estudos linguísticos aplicados modernos, revelando um posicionamento nostálgico de quem foi educado com os textos de Camões, como mostra essa passagem colocada em destaque pela revista: ''Em vez de destrincharem o objeto direto dos catorze primeiros versos que abrem 'Os Lusíadas', apenas o texto mais importante da língua portuguesa, dão um pé no traseiro de Camões (1524 - 1580), mandam o poeta caolho cantar sua namoradinha chinesa em outra barcarola e oferecem, sei lá, facilidades da MPB''.
Como será que esse jornalista encararia o fato de seu texto - produto da cultura midiática - ser levado para a sala de aula? Será que sua escrita é ''digna'' de adentrar as portas da escola? Ou será que é isso mesmo que ele quer: privar os nossos alunos do contato com as diferentes vozes que se colocam em nossa sociedade? Assim como esse jornalista, muitos outros se lançam na ''proteção'' do nosso idioma, consequentemente, alarmando as escolas quanto ao perigo da influência maligna dos meios de comunicação na educação linguística das nossas crianças. Prova disso são as múltiplas discussões em torno da linguagem telegrafada da internet, o medo de que esse tipo de linguagem, criado pelas condições de produção on-line - rapidez, agilidade, informalidade, descompromisso - possa desvirtuar a escrita consagrada pela norma culta.
A língua sempre foi dinâmica e fortemente influenciada pelo uso. Se hoje, os meios marcam sua presença de forma massiva nas práticas sociais, é natural que acabem influenciando as formas de configurações linguísticas, seja na sua materialidade, seja na sua essência como instrumento de interação. É dever da escola estabelecer o diálogo entre a língua que se aprende na escola e a língua em uso, seja ela dos literatos ou da cultura midiática.
ELIANA MERLIN DEGANUTTI DE BARROS é professora do curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina


