Infelizmente, só pensamos
em obter pequenas vantagens
individuais em detrimento
de um bem maior. Poucas vezes
pensamos que a exigência da
disciplina e honestidade tem
o objetivo de ordenar e
organizar nossa vida. Somos
campeões em procurar causas
alheias para nos desculpar


  Já disse Kant que ‘‘se a felicidade fizesse parte da natureza humana, Deus não nos teria dado inteligência’’. Mas humildemente pergunto: nós a usamos? No Brasil temos a força do vento e a luz do sol de forma intensa, como em nenhum outro lugar, e não usamos esta energia limpa que de longe é a maior tecnologia limpa de qualquer poluente, ou seja, nenhuma liberação de gases de efeito estufa. Energia esta que, no país, representa apenas uma gota d‘água no oceano das necessidades (menos de 1% do que precisamos).
  Na educação, nossos estudantes não aprendem o que deveriam porque poucos são os professores que motivam o aluno a pensar e a agir. O foco da aprendizagem ainda está na repetição de conteúdos, copiar e resumir. Se assim não fosse, a prova internacional de aproveitamento escolar não teria mostrado que 23% dos alunos brasileiros não são funcionalmente alfabetizados, melhor dizendo, classificados como insuficientes.
  Escolhemos por livre e espontânea vontade os piores políticos por mais que a imprensa nos mostre que são condenados e desonestos. Não existe aqui nenhum Robin Hood que tira dos ricos para dar aos pobres. Mas sim, tiram, desviam e roubam de milhões de pobrezinhos que não têm o essencial para manter um mínimo de dignidade e colocam, sem nenhum escrúpulo, no próprio bolso gerando desgraça.
  O incrível é que, por mais estranho que possa parecer, em muitos lugares é o próprio cidadão carente que, luta com dificuldade, que elege o mau político como se acreditasse que ele não merecesse ter esperança. Uma relação de co-dependência, uma inabilidade de manter e nutrir relacionamentos saudáveis com o mundo e/ou consigo mesmo, um comportamento aprendido e derrotista.
  É preciso saber que o amor de Deus vem para quem crê e acreditar que ainda nesta terra poderemos viver uma dimensão espiritual incomum e ser felizes. Acreditar que merecemos. O mundo em que vivemos é o reflexo da educação de nossos filhos. Todo pai que cresceu sofrendo não conhece outra situação a não ser continuar acreditando que não tem o direito de mudar, de tentar e proporcionar para ele e sua família uma situação de alegria e felicidade ainda nesta vida.
  O dinheiro que indevidamente lhe é tirado poderia estar provendo sua dispensa. Por que não? Infelizmente, na maioria dos casos, só pensamos em usar os grupos em que estamos inseridos para obter pequenas vantagens individuais, de qualquer natureza, em detrimento de um bem maior. Poucas vezes pensamos que a exigência da disciplina e honestidade tem o objetivo de ordenar e organizar nossa vida, nossa cidade, nosso país. Somos campeões em procurar causas alheias para nos desculpar. A essência do sucesso repousa na cooperação e boas escolhas.
  Falta orçamento para saúde, educação, estradas e moradia, enquanto engordamos os bolsos de paraísos fiscais com o dinheiro dos que passam fome, dos desempregados, dos que morrem em hospitais com índices alarmantes de infecção hospitalar. Países minúsculos como Mônaco, Islândia - um mundinho de gelo -, Israel - pequeno e com tanto deserto - estão a milhares de anos luz a nossa frente. Em recursos naturais estes países não têm o que o Brasil tem na ponta do próprio rabo.
  O importante não é chorar pelos drogados, doentes e sistemas falidos. O importante é saber que tudo isso acontece e o país está regressivo por nossa própria escolha. Somos culpados porque não usamos a inteligência que Deus nos deu e pagamos com a infelicidade.
  Existem lugares aonde o povo não tem escolha - vide Vietnã do Norte - e tantos outros. Aqui onde poderíamos escolher, repetimos tantos malufs, jaders e o espírito de ACM ronda este país. Nada somos além de um grande painel do Senado. Conta-se que na Amazônia um candidato tinha um slogan terrível - ‘‘O povo da Amazônia só no chicote’’ - e foi eleito. E aí entra Sêneca: ‘‘Enquanto esperamos a vida passa’’.

NELIO ROBERTO DOS REIS é professor universitário em Londrina

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