ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Benilson Borinelli 
As proporções da dívida
social e dos desafios da
sustentabilidade ambiental
e social no Brasil e no
mundo exigem uma ampla
cooperação e coordenação
dos atores sociais, contudo,
o papel do protagonismo
empresarial é pouco convincente
O movimento da responsabilidade socioambiental empresarial é um dos mais importantes fenômenos políticos e sociais dos últimos tempos. A sua ascensão mundial, amparada pela proliferação de teses neoliberais, elevou o setor a uma posição de protagonismo na esfera pública, aliás, uma das principais razões para a dilatação da noção de política pública. Esse movimento, diante do aprofundamento da crise socioambiental, da retração do Estado e da natureza ambígua de tais iniciativas, tem provocado um crescente interesse pela avaliação mais isenta de seu alcance e efetividade. Uma forma de fazer essa avaliação pode basear-se na credibilidade da responsabilidade social junto à população.
Em pesquisa nacional de opinião, realizada em 2006 pelo ISER e Vox Populi (O que o brasileiro pensa da biodiversidade?), 57% dos entrevistados acreditavam que a atuação das empresas na defesa do meio ambiente é negativa e apenas 11% que ela é positiva, o menor índice entre os demais atores (governos e ONGs). Mais importante, a avaliação positiva do desempenho das empresas na defesa ambiental vem regredindo, em 1997 era de 16% e, em 2001, de 14%.
Em Londrina, pesquisas realizadas em 2007 pelo curso de Administração da UEL mostraram resultados que apontam na mesma direção. Ao investigar como indústrias, consumidores e órgãos governamentais avaliam a regulação ambiental na região de Londrina constatou-se que: a qualidade ambiental na região é preocupante ou crítica, os problemas mais graves são a poluição das águas e lixo, governos e empresas não estão priorizando a preservação do meio ambiente. Do ponto de vista dos consumidores, confirmaram-se as tendências das pesquisas nacionais, para quase 60% deles as empresas estão entre os principais responsáveis pela degradação ambiental, e apenas 9% acreditam mais nelas para resolver esses problemas. Um dado inédito é que quase 70% dos consumidores de Londrina não confiam no marketing ambiental das empresas.
O que uma provável democracia de mercado parece estar demonstrando é que, apesar de maciços investimentos em projetos sociais e ambientais, e, em muitos casos, mais ainda em suas divulgações, são poucas as evidências convincentes de que essas iniciativas estão à altura do desafio que se propõem. Menos do que um questionamento à eficácia dos marketeiros, esse fato é uma provocação ao modelo hegemônico que propõem a substituição do Estado pelas forças de mercado. Quase duas décadas após a vigência desse modelo, não parece surpresa que venha crescendo a preferência pelo retorno ao Estado para resolver os problemas sociais na América Latina (www.latinobarometro.org.ve).
Esses dados são mais pertinentes se pensados dentro de um quadro de persistência e até agravamento das carências e injustiças sociais e ambientais. Seria prematuro desprezar a priori os resultados interessantes de algumas experiências empresariais isoladas na área. Entretanto, o movimento da responsabilidade social parece deixar claro que é necessário muito mais empenho político e capacidade de coordenação da classe empresarial. Talvez encontremos aqui um problema dos, desde há algum tempo já anunciados na literatura, limites das estruturas institucionais que privilegiam a privatização ampliada das políticas públicas. Não há dúvida que as proporções da dívida social e dos desafios da sustentatibilidade ambiental e social no Brasil e no mundo exigem uma ampla cooperação e coordenação dos atores sociais, contudo, diante do campo de possibilidades político-institucionais aberto nos anos de 1990, o papel do protagonismo empresarial ainda é pouco convincente.
BENILSON BORINELLI é professor da Universidade Estadual de Londrina e coordenador do Grupo de Estudos em Política e Gestão Socioambiental


