A crise mundial e os consórcios
Rodolfo Montosa


Já ouvi algumas vezes pessoas opinando contra o sistema de consórcios. Falavam coisas do tipo: ''mas só tem no Brasil'', ''quando o crédito em abundância vier ao Brasil, o consórcio acabará'', dentre muitas outras afirmações congêneres.
O fato é que o mundo está mergulhado em uma crise cuja principal raiz é justamente o composto que envolve o crédito fácil, baixas taxas de juros, excessivo endividamento do consumidor, grande apetite ao risco por parte das instituições financeiras, produtos financeiros sofisticados e sem o devido lastro. Para ajudar, temos a cumplicidade das agências de riscos e a frágil regulação e supervisão por parte dos governantes.
É previsível que o caminho de conserto seja o inverso: critérios mais rigorosos para o crédito ao consumidor final, juros mais elevados, prazos mais curtos, instituições melhor supervisionadas, produtos financeiros mais convencionais. A mudança de cenário impactará rapidamente toda a cadeia produtiva que se utilizava de outras premissas.
Muitos críticos talvez ignorem a realidade saudável do autofinanciamento (consórcio) por não vir acompanhado do glamour dos exóticos produtos financeiros. Exóticos e sem liquidez, diga-se de passagem.
Ao contrário das complexas fórmulas derivativas, a simplicidade do sistema de consórcios assusta: um grupo de pessoas que se une para a programação de compra de um bem, ajudando-se mutuamente, sem a necessidade de recursos externos. Mês a mês atingem seus objetivos. Ao final, têm o menor custo, controlam seus orçamentos e finanças pessoais, disciplinam seus impulsos e formam reservas e patrimônio.
Neste contexto, o Brasil acaba de dar um grande salto criando a Lei 11.795/08 que regulamenta o sistema de consórcios. Não poderia haver momento mais estratégico que o atual para os consumidores, fabricantes e distribuidores de bens e serviços.
Ao invés de esperar a retomada do crédito, todos podem se lançar no consórcio como alternativa à escassez de crédito pela qual passaremos. Ganha o consumidor que programará melhor suas principais aquisições. Ganha o distribuidor e fabricante que formará uma carteira de pedidos. Ganha o Brasil com o equilíbrio oferta/demanda promovido pelo sistema de consórcios.
Neste ano, o Sistema de Consórcios deve fechar com um movimento de R$ 20 bilhões em créditos contemplados, R$ 60 bilhões em ativos administrados, 3,6 milhões de consorciados. Esses números todos foram gerados ainda sem os efeitos da lei cuja vigência será a partir de 6 de fevereiro de 2009.
As empresas que, na indústria automobilística, em especial de motocicletas e caminhões, utilizam-se dessa ferramenta estratégica, poderão enfrentar os tempos difíceis em melhores condições, pois formaram uma carteira planejada de clientes. Algumas delas chegam a ter 50% de suas vendas através dos consórcios, obtendo grande vantagem competitiva sobre seus concorrentes. No mercado de imóveis, por sua vez, o consórcio (2007 - 50 mil) já responde por 20% das unidades entregues em comparação com o SFH (2007 - 195 mil).
Aos céticos de plantão, há uma boa notícia: o Sistema de Consórcios está mais preparado que nunca para ajudar diversos segmentos produtivos brasileiros.
RODOLFO MONTOSA é presidente nacional da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcio

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