ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Walter Barbosa Bittar 
O ator teve coragem,
brio e decência (tão
distante para muitos da
classe artística e de
outras também) de insurgir-se
contra a onda de pornografia
que tomou conta das telas de
nossas casas e cinemas, pois
nudez constrange não só a
platéia como também os atores
Para quem não o conhece Pedro Cardoso é um dos atores do elenco da Rede Globo de televisão, e atualmente é mais conhecido por ser o intérprete do personagem Agostinho do seriado A grande família.
Ator notável, cujo desempenho artístico é, sem exagero, excelente, Pedro Cardoso deve ter ressaltada sua coragem e sensibilidade quando, na cerimônia de lançamento do longa-metragem Todo mundo tem problemas sexuais, de Domingos de Oliveira, no último dia 8 no Festival do Rio, conseguiu superar seu talento para as artes cênicas ao surpreender a todos - para aqueles que desconheciam - demonstrando uma grande qualidade humana e que anda esquecida: indignação.
O fato que merece aplausos calorosos (de pé!), não apenas dos fãs, mas de todo cidadão, minimamente, consciente, foi que o intérprete do politicamente incorreto Agostinho, foi o primeiro ator brasileiro a enfrentar - concretamente - em um discurso que classifico como brilhante, a hipocrisia que tomou conta dos responsáveis pela direção dos programas televisivos e do cinema nacional.
Cardoso teve coragem, brio e decência (tão distante para muitos da classe artística e de outras também) de insurgir-se contra a onda de pornografia que tomou conta das telas de nossas casas e cinemas, pois nudez constrange não só a platéia como também os atores.
O ato merece destaque, não só pelas retaliações que o ator deve receber, pois agora é um representante da própria classe artística que não aceita o fato de que a pornografia tornou-se um modo de atrair o público (o termo pornografia é do próprio discurso), como por demonstrar a todos que um ser humano jamais poderá ser tratado como um objeto da lascívia sexual alheia.
O discurso brilhante não deixou de lado o fato evidente de que nunca é o personagem quem está nu, mas o próprio ator, que como todo ser humano tem sentimentos tais como vergonha, pudor, senso de ridículo, moral...
Alguns podem até ficar surpresos, pois o senso comum (mal formado) chega a afirmar que um ator não pode impor limites a vontade de um diretor, pois o personagem está acima de tudo. Para esta insensatez, vale reproduzir as palavras do próprio Pedro Cardoso: A pornografia está tão dissimulada em nossa cultura que não a reconhecemos como tal. Hoje qualquer diretor, medíocre ou não, se acha no direito de determinar que uma atriz possa ficar pelada numa cena ou parcialmente despida.
Mais: com seu ato de coragem ímpar, demonstrando toda a sua revolta por sentir afrontado o âmago de seu ser, delatou que existem cineastas que chegam a exibir para amigos, em sessões privadas, cenas que conseguiram de determinada atriz, mostrando a baixeza que existe por trás das câmeras, a título de nu artístico.
Certamente, como bem disse o ator global, um diretor não deveria pedir para um ator ou uma atriz fazer o que não desejasse que uma filha fizesse, pois um ator não tem a obrigação de tirar a roupa, o que não é uma exigência do ofício, mas sim da indústria pornográfica (a conclusão é de Pedro Cardoso e é preciso que todos endossem).
Nem mesmo a baixaria dos programas populares, que só sabem recorrer à nudez, foi esquecida no histórico discurso, pois o brasileiro não é assim tão medíocre, especialmente na forma como são tratados ao receber este tipo de programação por parte da chamada arte televisiva e cinematográfica.
Enfim, que todo brasileiro siga o exemplo de indignação e de rebeldia contra a balbúrdia moral que se quer instalar. Que não se cale mais em nome do odioso politicamente correto, que cada vez mais atitudes como a de Pedro Cardoso sejam tomadas, não só em nome da decência e do respeito ao próximo, mas em nome de nossas famílias, do futuro do país e do mundo.
Bravo Pedro! Seus fãs e os seus semelhantes enaltecem o seu feito.
WALTER BARBOSA BITTAR é advogado e professor de Direito Penal da PUC/PR campus Londrina


