É preciso eliminar
definitivamente o
sistema de atendimento
de ‘minuto’ nos postos
de saúde, ou seja, uma
consulta médica deve ser
efetuada na plenitude,
sem pressa, com uma
boa interação entre o
médico e o seu paciente



A propaganda eleitoral revelou para nós poucas novidades. Assistimos discursos e promessas, porém muito longe da realidade dos municípios, que sofrem com baixa arrecadação e registram orçamento apertado para as demandas da população. Porém, quero destacar apenas o setor da saúde pública. Nossos candidatos, em várias cidades brasileiras, afirmaram que a melhoria nos serviços implica em mais postos, mais médicos e mais remédios - aspectos obrigatórios em qualquer programa de governo. Nossos candidatos esqueceram de indicar ações, algumas tão simples, mas tão imprescindíveis. Falo isto com a experiência em acompanhar de perto o setor da saúde, particularmente, nos últimos anos, ao vivenciar as atividades do Hospital Universitário de Londrina.
O prefeito eleito precisa ser gestor e interagir com a população e os servidores da saúde. A primeira pergunta que deveriam se fazer é: por que há intermináveis filas nos postos de saúde e hospitais? Pode ser que tenhamos muitas causas e respostas, mas algo parece permear a maioria dos casos; há demora no repasse de recursos do SUS para os hospitais públicos. Com isto, há descontentamento pessoal e falta de reposição do estoque de remédios; isto, ainda, leva a outras consequências e graves sequelas; exames especializados como Raios-X, ultra-som e outros, até mesmo mais simples, não são realizados com brevidade e isso cronifica algumas doenças, retardando o diagnóstico e colocando dúvida na efetividade do tratamento. O paciente retorna ao hospital na esperança de realizar a complementação de seus exames e é obrigado a voltar posteriormente. Por isto, uma sugestão inicial é que o futuro prefeito saiba exatamente como são distribuídos os recursos do SUS para todas as unidades e hospitais, incluindo os particulares que tem convênios.
Aí, entra uma segunda questão: por que não se faz a distribuição inicial para os hospitais públicos e depois se contempla os particulares conveniados?
Por outro lado, é preciso eliminar definitivamente o sistema de atendimento de ''minuto'' nos postos de saúde, ou seja, uma consulta médica deve ser efetuada na plenitude, sem pressa, sem correria, com uma boa interação entre o médico e o seu paciente. Algumas vezes, se resolve o problema no ato da consulta, sem a necessidade de recorrer a exames complementares. Nestes casos a paciência do profissional é fundamental e os médicos devem ser bem remunerados pelo serviço que prestam. Defendo também os princípios norteadores da semiologia, ou seja, a anamnese, inspeção, palpação, percussão e auscultação dos pacientes.
Alguns diagnósticos seriam realizados imediatamente, evitando que uma simples gripe mal diagnosticada evoluísse para uma pneumonia em poucos dias, levando à infecção grave e a ocupação de mais um leito.
Outra medida que teria impacto na qualidade da saúde pública é o estímulo à abordagem médica cuidadosa, a verificação de que uma crônica dor de cabeça pode significar problemas de visão; que uma enxaqueca pode ser um simples mau funcionamento da vesícula biliar e que a falta de sono decorre de problema psicológico e não médico.
Em outras vezes, a obesidade poderia ser resolvida com nutricionista e não necessariamente com medicamentos controlados; os problemas articulares nem sempre são casos médicos, muitas vezes as ações de fisioterapia resolveriam os sintomas.
O problema de saúde da população decorre da qualidade do atendimento, que reflete a má remuneração de honorários médicos. O resultado desta equação é o acúmulo de jornadas de trabalho e menos sensibilidade para triagem dos pacientes, afetando a ética profissional. É preciso resgatar o atendimento humano e digno. O desafio dos prefeitos eleitos será restabelecer valores colocando o paciente no âmbito da dignidade da pessoa humana; é para o paciente que o sistema público tem de funcionar, e bem.

WILMAR MARÇAL é reitor da Universidade Estadual de Londrina

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