A crise chegou à agricultura
Ágide Meneguette
  A ‘‘marola’’ da crise financeira, que está fazendo estragos no mundo e que pouco afetaria o Brasil na visão do presidente da República, já está causando prejuízos à agropecuária e vão se agravar mais na colheita da próxima safra. Esse injustificável otimismo do governo federal parece ser responsável pelo imobilismo de setores financeiros federais, especialmente aqueles voltados ao setor. Mal saindo de uma renegociação de dívidas, que ainda não se concretizou em sua maior parte, os produtores rurais já enfrentam novas dificuldades.
  A primeira delas diz respeito ao volume de produção. Certamente o Brasil, e o Paraná em conseqüência, não atingirão as estimativas ufanistas dos organismos do governo uma vez que os custos de produção aumentaram em mais de 30% principalmente pela alta dos preços dos fertilizantes, enquanto o crédito ficou praticamente do mesmo tamanho, obrigando o produtor a usar menos tecnologia ou a diminuir a área de plantio ou ainda a buscar recursos onerosos em outras fontes. Os bancos, ao invés de facilitarem a renegociação de dívidas e fornecerem novos créditos, exigem o pagamento integral dos débitos e, em alguns casos, negam-se a contratar financiamento para o plantio desta safra, deixando o infeliz agricultor na mão.
  Essa crise, que já se consagrou como um ‘‘tsunami’’, tal o seu poder de devastação da economia mundial, é responsável pelas incertezas do mercado. Como estarão os preços, o volume de demanda, a capacidade de honrar o pagamento das compras quando chegar a hora de comercializar a produção? Se ninguém se arrisca prever como se comportarão as bolsas e a oscilação das moedas entre manhã e tarde, como fazer previsões de que o ‘‘mundo precisa comer’’ e por isso o agronegócio deixaria de ser afetado pelas mazelas da economia? Assim como o Banco Central vem fazendo com o sistema financeiro, fornecendo recursos para evitar uma ‘‘quebradeira’’ generalizada, o governo precisa fazer com o agronegócio. Se não forem tomadas as medidas certas, o setor rural acabará engolfado numa nova crise de endividamento, como ocorreu na década de 1990 e nos anos recentes deste século. Governo e sociedade devem ter em mente que o agronegócio é o responsável pelos saldos em nossa balança comercial que permitiram ao País liquidar a dívida externa e se colocar em posição menos desconfortável perante a economia mundial.
ÁGIDE MENEGUETTE é presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná


Filhos tão especiais
Phoenix Finardi
  Um padre disse, certa vez, durante um funeral, que nenhuma mãe deveria ter que enterrar o próprio filho. Na verdade, todos os pais desejariam morrer antes dos filhos. É a lei natural, os mais velhos vão primeiro. Mas há pais que vivem um dilema muito mais doloroso do que o medo de perder um filho. Eles temem a própria morte, não por si mesmos, mas pelos filhos, incapazes de sobreviver sem eles.
  Os pais de filhos com qualquer tipo de deficiência grave rezam para não ficar doentes; para não envelhecer, para não partir antes que um milagre traga alguém que possa ficar no lugar deles. Nem sempre esse milagre acontece.
  Cuidar de um filho é tarefa exaustiva, sempre. Há que adivinhar perigos, conhecer as leis da física, entender de farmácia, medicina e saber dar conselhos sentimentais. Não se pode errar. No entanto, todos os pais sabem, lá no fundo, que as noites mal dormidas um dia terão fim; que as cólicas, sapinhos, dores de garganta e rebeldias da adolescência são passageiras. Todo pai sonha com uma alegria tão simples que parece mentira: ver o filho independente.
  Há pais, no entanto, que não podem sonhar. Não podem se cansar, não podem adoecer, nem envelhecer e ficar frágeis e ranzinzas como todos nós. Quem vai trocar as fraldas do filho já adulto ? Quem vai saber acalmar as crises da filha, ou entender o balbuciar incoerente do filho? Quem vai ter paciência quando ele teimar em colocar sempre a mesma roupa? Quem vai contar a mesma história para ela dormir? Quem vai dar comida na boca, dar banho, pentear o cabelo dele, para o resto da vida?
  Esses pais oram para que Deus prolongue suas vidas, até onde o amor alcance. Eu fico imaginando uma outra oração... que nos ensinasse a amar assim, como esses pais, para que na ausência deles não faltassem famílias que acolhessem esses filhos, tão especiais, que não podem nunca ficar sem pais.
Phoenix Finardi é jornalista da FOLHA DE LONDRINA

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