ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de outubro de 2008
Dom Orlando Brandes 
Voto não é mercadoria,
é opção, é ferramenta
com a qual se avança na
construção dos destinos
da pátria. O voto é
sagrado, é livre, é
secreto. Ninguém está
obrigado a votar para
pagar um favor.
Isso é corrupção
Exercemos a cidadania e a democracia principalmente através do voto, que é o exercício mais claro e direto do poder do cidadão e do povo na política. Omitir-se é então a pior forma de fazer política. O voto é a expressão da vontade do cidadão, uma forma de participação política, talvez, a mais decisiva da parte do povo e das pessoas. A eleição é, por assim dizer, a espinha dorsal da democracia, através da qual o povo escolhe seus representantes, delegando a eles o poder de decidir em seu nome sobre os interesses que são de todos.
Uma parcela significativa de nosso eleitorado desconhece a importância do voto e, por isso, se torna presa fácil da generosidade interessada dos compradores de votos. João Paulo II diz: O fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na política. Portanto, ninguém deve se omitir, nem anular o voto, nem votar em branco. Votar é um gesto de responsabilidade e de maturidade social. Voto não é mercadoria, é opção, é ferramenta com a qual se avança na construção dos destinos da pátria. O voto é sagrado, é livre, é secreto. Ninguém está obrigado a votar para pagar um favor. Isso é corrupção.
Esta não é hora para pessimismos, mas sim é hora de decisão, pois o voto tem conseqüências. Bem escrevia Pio XII que a política não é arena de ambições, nem corrida para ganhos próprios, mas uma alta forma de amor fraterno. Decorre daí que para alguém votar bem, deve conhecer o perfil dos candidatos e os projetos dos partidos. Nós, brasileiros, estamos acostumados a dizer que política é uma coisa suja. É preciso virar esta página, lutando por ética na política, aplicando a Lei 9.840 contra a corrupção eleitoral e, principalmente, colaborando com a educação política que consiste, entre muitas coisas, na conscientização do povo. Assim, superaremos a política do favor, da retórica, das promessas, da demagogia. Soou a hora da libertação política para que a mesma não acabe em tragédia e nem em comédia, em jogo de poder e ambição.
Diz a Escritura Sagrada: Amai a justiça vós que governais a terra, porque a justiça é imortal (Sab 1. 1. 15). Para os candidatos católicos (cristãos), a política é um ministério, é uma missão, uma diaconia (serviço) em favor do povo, é uma decorrência da fé que se comprova nas boas obras, portanto, uma pastoral social. Esta missão requer competência, eficiência, transparência e espírito de serviço.
O voto ético é o voto consciente que supera o velho costume de votar por tradição, para pagar favores, para obedecer a vontade da empresa, da religião, dos parentes, dos cabos eleitorais, para quem leva vantagem nas pesquisas, por razões da aparência física e simpatia do candidato, por força de palavras, discursos, promessas, demagogia, etc. Voto ético é voto consciente, livre, secreto, responsável. Com candidatos e eleitores competentes construiremos uma pátria mais digna e viveremos com mais segurança e paz.
Temos candidatos competentes, conscientes e dignos da credibilidade. É hora de mudar para melhorar nossa qualidade de vida. A educação e conscientização política é o caminho que leva à libertação, à mudança de mentalidade. Neste sentido a Igreja tem sua doutrina social há mais de um século, oferece aos fiéis escolas de fé e educação social, organiza os grupos de reflexão, compõe cartilhas políticas, estuda e divulga documentos do Concílio Vaticano II e dos Papas, institui cursos de teologia e consulta as Sagradas Escrituras.
A política não se esgota nas eleições. A responsabilidade dos cidadãos não acaba nas urnas. Além da democracia eleitoral, precisamos conquistar a social. Nossa tarefa é educar os eleitores. Os cristãos não podem ficar indiferentes, estranhos indolentes diante de questões sociais, porque todos somos responsáveis por todos. Ainda mais, a caridade não pode estar dissociada da justiça e os fiéis leigos não podem abdicar da participação na política enquanto promoção do bem comum.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


