A condição para que
a democracia seja
fortalecida está na
politização de mulheres
e homens, no abandono
ao individualismo e
desprezo à passividade.
E esta condição só
virá com a verdadeira
educação e a real abertura
possibilitada a todos



  Por conta de um processo eleitoral, muito é transformado: homens e mulheres substituem buracos e empunham bandeiras; homens e mulheres trocam votos por um ‘‘bico’’; mulheres e homens submetem-se à compra indireta (talvez direta) de votos; homens e mulheres vestem camisetas que estampam o rosto de quem não se conhece a história de vida; candidatos apertam as mãos e abraçam mulheres e homens suados e malcheirosos em troca de uma imagem para a campanha televisiva (gesto que normalmente não fariam se não houvesse um propósito).
  Mas muitos homens e mulheres distanciam-se do processo eleitoral, até porque sabem ser da natureza humana a ambição pessoal. Assim, muito mais do que a luta pelo coletivo, estão os projetos pessoais de um candidato e do grupo que o cerca. Daí a importância do voto obrigatório. Só assim participam aqueles que não dependem da ‘‘indústria política’’, proporcionando um certo equilíbrio de ‘‘opiniões’’.
  Em um país de mazelas, fixou-se a impressão de que democracia é votar. E democracia não me parece ser isto. A imagino com alguns ingredientes: rotatividade, conflito, pluralismo e condições mínimas de dignidade.
  Observar homens e mulheres sob sol ou chuva, trabalhando por uma razão que não possuem, lutando por uma causa que não lhes pertence, almoçando debaixo de alguma marquise durante o horário concedido, espremidos em kombis durante o caminho que os levará do quase nada ao nada significativo, traz uma reflexão: Isto é democracia? Por esta democracia lutou-se?
  A condição para que a democracia seja fortalecida está na politização das mulheres e homens, no abandono ao individualismo e desprezo à passividade. E esta condição só virá com a verdadeira educação e a real abertura possibilitada a todos, homens e mulheres.
  A miséria de mulheres e homens também é demonstrada na perspectiva negativa de beneficiar-se da eleição de algum candidato. Um cargo ou alguma isenção qualquer, talvez. Assim, muitos cercam o processo alimentados por interesses que não são comuns à comunidade.
  A natureza humana é cruel: candidatos (com raras exceções) pensam em si; o eleitor pensa em si; grupos pensam nos grupos; cada um de cada grupo pensa primeiro em si.
  A morte, entre homens e mulheres, deveria fazer-nos mais autênticos. Afinal, nós, homens e mulheres, somos os únicos seres com a consciência de que ela virá. Mais cedo ou mais tarde.
  Sei, é necessário sobreviver para que a morte não venha tão rapidamente. Mas pensar na morte pode levar mulheres e homens a não repetir gestos, transformando-nos em seres mais dignos. Nem tudo vale a pena. Mas a alma, de homens e mulheres, ainda parece ser pequena.
  Todo este cenário miserável atesta o fracasso de uma sociedade que, há quarenta anos, imaginou-se diferente e que, tenho certeza, não se mostrava tão hipócrita. Ou seja, não se falava uma coisa e fazia-se outra.
  Claro, tivemos muitos desencantos, que esvaziaram utopias e crenças. O capitalismo globalizou-se, o ‘‘jogo’’ político tornou-se menos romântico e mais sarcástico, os meios de comunicação proliferaram e procuram mostrar atitudes humanas pouco naturais como normais.
  Parece-me surreal perceber que a Londrina de homens e mulheres esqueceu-se dos vários escândalos de corrupção a que estivemos submetidos nos últimos anos! Parece-me surreal que mulheres e homens que discutem política nas rodas sociais mais sofisticadas da cidade esqueçam da origem de um ou outro candidato. Parece-me surreal que homens e mulheres abreviem tanto, resumam tanto, condensem tanto, simplifiquem tanto. E sofram depois.

AGNALDO KUPPER é professor de Sociologia e História em Londrina

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