ESPAÇO ABERTO
Reflexão sobre doação de órgãos
Isabel Cristina Carstens Köhler
Setembro é o mês da Campanha Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos. O objetivo é incentivar as pessoas a se tornarem doadoras e mostrar a importância social da doação. O Papa João Paulo II no XVIII Congresso Internacional de Transplantes (2000), em Roma, disse: Com respeito pela ciência e mantendo-se atenta, acima de tudo, à lei de Deus, a Igreja nada mais visa que o bem integral da pessoa humana. Os transplantes são um grande avanço da ciência a serviço do homem e não são poucas as pessoas que devem suas vidas a um transplante. A técnica de transplantes tem se afirmado progressivamente como um instrumento válido para atingir o principal objetivo da Medicina - servir à vida humana. Por essa razão, em minha Carta Encíclica Evangelium Vitae, sugeri que um modo de nutrir uma genuína cultura de vida é a doação de órgãos, realizada de um modo eticamente correto, com uma perspectiva de proporcionar a recuperação da saúde e, até mesmo da vida, a doentes que algumas vezes não têm outra esperança (Nº. 86).
No Congresso sobre Transplantes de Órgãos (1991) o mesmo disse: ... todo transplante de órgãos origina-se de uma decisão de grande valor ético: a decisão de oferecer, sem buscar recompensa, uma parte do corpo de alguém
para a saúde e bem-estar de outra pessoa.
Na homenagem, em 2007, da Secretaria da Saúde da Bahia aos incentivadores da doação de órgãos, Dom Geraldo Majella Agnello, Cardeal Primaz do Brasil, disse: Deus espera de nós darmos não o que nos sobra, mas o que temos no coração. Devemos pensar que além da própria morte, mesmo depois da morte, podemos partilhar e doar. A doação de órgãos é isso, é um ato de amor.
Estes são pontos de reflexão que nos conscientizam da necessidade de participarmos desta campanha porque acreditamos na solidariedade que é uma das maiores e mais bonitas qualidades do ser humano. A doação de órgãos vai além do resgate da vida e da dignidade do receptor, é um dos maiores atos de amor ao próximo.
ISABEL CRISTINA CARSTENS KöHLER é bioeticista e coordenadora do Núcleo Arquidiocesano de Bioética de Londrina
Condição necessária
Antonio Delfim Netto
O pacote de 700 bilhões de dólares proposto ao Congresso dos Estados Unidos pelo Departamento do Tesouro e Banco Central é um início de solução para o tumulto que domina os mercados financeiros. Da sua aprovação vai depender a retomada da confiança que é a condição primeira para que o sistema volte a funcionar. Porque esta não é uma crise econômica, é uma crise de mercado onde o elemento fundamental é a confiança mútua entre as pessoas. Quando ela é quebrada, o mercado deixa de funcionar, perde suas funções vitais.
A paralisia do mercado tem conseqüências na economia real, com a queda dos investimentos, redução do crescimento do PIB e eliminação de empregos. É isso que justifica a dramática interferência do governo americano. Restabelecer a confiança é, então, condição necessária, embora não suficiente para que o mercado volte a funcionar adequadamente. A questão é saber como conseguir retirar do circuito a montanha de títulos que não tem liquidez, aqueles papéis que não tenham colaterais sólidos. Esta operação não pode ser restrita aos Estados Unidos, ela deverá atender pelo menos a Eurolândia, o Canadá e o Japão e tem que ser feita em prazo relativamente curto. É preciso limpar o mercado desses papéis para que se restabeleça a confiança e os agentes voltem a operar em ambiente menos conturbado em todo o mundo.
Há ainda vários complicadores nessa passagem pelo Congresso dos Estados Unidos. Os legisladores desejam influir para minimizar os prejuízos dos mutuários, uma questão política da maior relevância nesta antevéspera de eleição presidencial. Uma discussão muito acesa é em torno da punição dos operadores de mercado que claramente traíram a confiança dos aplicadores.
Outra grande questão é saber como estabelecer as condições de reprecificação dos ativos que terão que ser adquiridos pela Agência a ser criada neste processo. Hoje os papéis valem zero, mas com o tempo, na medida em que o mercado voltar a funcionar, podem recuperar uma parte de seu valor e atrair o interesse dos agentes financeiros e dos Bancos quando forem ofertados pela Agência.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor Emérito da FEA/USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento





