ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de setembro de 2008
André Luiz da Silva 
Saramago mostra a
corrupção dos valores
primeiros do sujeito
moderno, revela sua
fragilidade, o faz descer
do pedestal da suficiência,
destitui sua autoridade
e institui a incompreensão
de si e do mundo
Está em cartaz o filme Blindness, dirigido por Fernando Meirelles e baseado no livro Ensaio Sobre a Cegueira de Saramago. Apesar de não comparar-se ao livro, o filme não deixa a desejar. É intrigante, pessimista, destruidor do sujeito moral erguido pelos valores do período atendente da tese do sujeito que se subordina a si mesmo, independente e livre.
Certamente, difícil é a tarefa de pôr Saramago numa corrente específica de pensamento. Contudo, apesar das enormes possibilidades de interpretação, uma leitura de Ensaio Sobre a Cegueira poderia propor a idéia do rótulo de um visionário moderno. Isto porque, no mesmo espírito de Kafka, como a comparação encontrada na resenha da capa do livro, Saramago mostra a corrupção dos valores primeiros do sujeito moderno, revela sua fragilidade, o faz descer do pedestal da suficiência, destitui sua autoridade e institui a incompreensão de si e do mundo.
O sujeito moderno, a obra mostra, pode ser a qualquer momento surpreendido pela cegueira sem causa. Numa insuficiência que gera medo, numa incompreensão que gera descontrole. Onde o papel das instituições é apenas o de deter os cegos, qualquer informação é negada. A burocracia é indiferente. As personagens não têm nome, identificadas pelo número da ordem de chegada ou pela profissão, relacionam-se de modo impessoal, algo como quando alguém te pede um CPF e nada mais. Não há lógica nem saída, apenas obediência mecânica ao que já se faz natural, um condicionamento constante, um encaixe nas regras irrevogáveis. A artificialidade incompreensivelmente vence.
O filme e o livro traçam o fim das possibilidades do sujeito moderno, o velho conceito da dignidade é posto em xeque, não passa de uma construção. E quando o estado é de incertezas, quando se desacredita das explicações e a falibilidade é certa, precisa-se acreditar em alguém que vê, ou que, pelo menos, diz que vê - como no mercado das religiões, por exemplo. A idéia que se tem é a de que se é produto de algo, mas não se compreende esse algo, ou seu movimento. Os bons conceitos do passado já não respondem de maneira direta as incertezas do futuro.
Aceitar a condição parece ser o melhor a se fazer, tentar conviver com isso da melhor maneira possível até o ponto de se esquecer das circunstâncias desesperadoras e disformes. Dificilmente o desconhecido possa ser solução para a angústia gerada naquela negação de verdades - quem sabe? Talvez, conhecer o estranho pode ser um bom passatempo e, desse modo, algum consolo. Mas fica a impressão de que o entendimento daquilo que se deixou de ser ou que se deixou
de ter revela-se não nos lugares estranhos, mas nos já conhecidos, contudo esquecidos.
Tudo está por um triz, mas não perdido de todo. Se pode olhar, veja. Se pode ver, repara. Diz a epígrafe do livro. É preciso parar, se é que se quer modificar ou, pelo menos, apreender. Este ponto chama atenção de modo especial, a possibilidade de, em meio ao caos de não se saber onde está e de não ser mais o que se foi, descobrir o que não é caos; separar as coisas. Isto, contudo, não é algo para todos e parece não durar muito. São necessários os referenciais que se comparam a cada instante com aquilo que passa. Mas se o olhar for atento a ponto de reparar, pode ser que, de repente, torne-se a ver.
ANDRÉ LUIZ DA SILVA é estudante de especialização em Filosofia Política e Jurídica na Universidade Estadual de Londrina


