Por que se fala tanto em ética?
Mauricio Donavan Rodrigues Paniza


A falta de ética vivenciada pela sociedade brasileira está agregada ao passado histórico. Não é segredo a abundância da falta de valores éticos desde a época do Brasil Colônia. A preocupação com a ética é recente mas sua falta remonta de longa data. Atualmente, a ética assume um caráter de ''status'' e elegância. As empresas ''éticas'' costumam ser melhores vistas por seus clientes. E até mesmo entre as pessoas o que se vê é uma maior conscientização acerca da necessidade de um país ser norteado por princípios éticos.
Mas ao passo que os escândalos políticos tornam as pessoas mais críticas quanto à falta de ética, há um confronto com os valores pessoais. O brasileiro, muitas vezes, preocupa-se com a ética desde que ela não atinja seus interesses. Aplica-se a isso a famosa frase bíblica: ''Não julgar para não ser julgado''. Infelizmente, é uma falsa preocupação ética.
Um exemplo prático de que a ética está em confronto com os interesses pessoais é um estudo feito pela professora Lilian Aligleri e outros professores, com a participação de estudantes universitários: ''Os estudantes preferem comprar um produto mais barato não importando se para sua fabricação, a empresa usa trabalho escravo ou degrada o meio ambiente'' (''Responsabilidade social: sobra teoria, falta prática/Folha Cidadania, pág. 3, 09/09).
Portanto, cabe questionar: até que ponto um Brasil que compra produtos que degradam o meio ambiente ou utiliza produtos obtidos por meio de trabalho infantil ou escravo, pode exigir ética na política, por exemplo? O fato é que, querendo a classe dominante ou não, a ética tende a ser cada vez mais discutida nas relações sociais. Entretanto, por abordar características relacionadas à cultura, a mudança e melhoria não é algo tão simples. Além do que, uma sociedade regida por valores sociais totalmente éticos, infelizmente ainda é utopia. Logo, a tarefa de vencer o ''jeitinho brasileiro'' deve estar em primeiro lugar, dentro de cada um de nós, e essa responsabilidade não pode ser jogada apenas sobre o todo.
MAURICIO DONAVAN RODRIGUES PANIZA é estudante de Administração na Pontifícia Universidade Católica do Paraná em Londrina

Um sonho de Brasil
Armando César Rodrigues Casimiro


Países do mundo inteiro estão desenvolvendo políticas que favoreçam a geração de empregos e o enriquecimento da sua nação. Porém, alguns grupos privados aproveitam-se destas políticas para promover o enriquecimento próprio e trazer indiretamente a miséria e prejudicar uma grande parte da população. Empresas com este objetivo se espalham pelo mundo afora. Países com políticas desenvolvimentistas bem fundamentadas estão fechando suas portas para estes grupos. Já os países que empregam políticas duvidosas e imediatistas constituem um amplo mercado para estas empresas. O Brasil se enquadra neste último grupo e serve como uma área exploratória para empresas nacionais e multinacionais. Um bom exemplo é a polêmica a respeito da instalação da Usina Mauá no Rio Tibagi.
Estudos realizados por professores da UEL afirmam que antigas minerações desenvolvidas próximas à área da Indústria Klabin ainda se encontram abertas e constituem potenciais poluidores por metais pesados se forem submersas. O alagamento decorrente da instalação da usina acabaria por cobrir cerca de 10 destas antigas minerações. Isto significa que a água responsável pelo abastecimento de 40 municípios estaria passível de contaminação por metais pesados. Os prejuízos, a longo prazo, à saúde pública e aos cofres públicos advindos do tratamento da água e de doenças relacionadas à ingestão destas águas contaminadas não vêm sendo computados pelos administradores de nosso Estado.
Seria interessante efetuar uma correlação entre estudos atuais sobre doenças derivadas da contaminação de metais pesados com estudos pós-instalação desta usina para que se observe o impacto indireto na população em decorrência do empreendimento. Sem contar o fato de que estaríamos submergindo uma grande fonte geradora de renda, por não sermos capazes de explorar o turismo ecológico e de pesca. A instalação desta usina visa suprir as necessidades energéticas de que estado? Do Paraná, talvez? Entretanto, e se a grande maioria desta energia for destinada a outro estado? Não vejo problema algum em ajudarmos outros estados se eles necessitarem, mas favorecer o desenvolvimento de outros estados em detrimento de uma grande parcela da nossa população é no mínimo duvidosa essa política desenvolvimentista.
ARMANDO CÉSAR RODRIGUES CASIMIRO é biólogo em Cambé

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